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Blog da Redação & Oficina de Pautas

Um modo radical de apoiar Barack Obama

Ícone do ativismo independente, Grace Lee Boggs sugere: mais importante que votar no candidato é não entregar a ele a responsabilidade pelas mudanças

Ela participou ativamente de todos os movimentos sociais importantes em seu país, no século passado — sindicatos, igualdade racial, feminismo, ambientalismo, luta contra as guerras do Vietnã e Iraque. Aos 92 anos, continua a ser a animadora do Detroit Summer, uma iniciativa que procura “redefinir, redesenhar e reanimar” a antiga “capital do automóvel”, por meio de ações de seus cidadãos. Sua experiência, sua capacidade de propor a seus interlocutores novos desafios e sua disposição de falar sem tribuna fizeram dela uma personagem conhecida e admirada no mundo dos grassroots movements — os movimentos de base que se multiplicam pelos EUA. Não significa que seja uma outsider: seu livro autobiográfico, Leaving for Change [Viver para Mudar], é amplamente adotado, na academia, nos estudos sobre movimentos sociais, Detroit e norte-americanos de ascendência asiática (ela é filha de chineses).

Tendo lutado pela transformação social por mais de 70 anos, Grace Lee Boggs impressiona pela lucidez, bom-humor, capacidade de renovação permanentemente e desapego em relação às velhas certezas. Em entrevistas recentes, disponíveis no YouTube, afirma que continua a se sentir revolucionária, mas aprendeu a afastar a idéia de revolução da “conquista” do Estado. Acredita agora nas “ações autônomas de transformação estrutural e auto-transformação”. Vê a história de seu país marcada, no último meio século, tanto pela concentração de riqueza e poder quanto pela sucessão de movimentos humanizadores muito potentes. Acha que os grassroots movements precisam avançar. Não basta protestar, ou resistir; é preciso produzir as mudanças.

Essa ativista e pensadora não-convencional, que não crê nem em grandes líderes nem nas instituições que eles dirigem (ou pelas quais são comandados…), tem escrito artigos em que revela um entusiasmo crescente pela campanha de Barack Obama à presidência dos EUA. Ela está empolgada tanto pelo seu carisma quanto por sua disposição para contrariar a lógica que exige políticos carismáticos. Em choque direto com o discurso da representação (inclusive o de esquerda), diz Grace, Obama não se apresenta como o portador da esperança. “Estou propondo a vocês que acreditem não apenas em minha habilidade de promover mudanças em Washinton. Estou propondo que acreditem na habilidade de vocês”, disse ele num discurso recente.

Esta postura, prossegue Grace, é coerente com as origens políticas de Obama, um ativista articulador de comunidades. Já foi manifestada em 1995, quando, ao concorrer pela primeira vez para o Senado, ele teve oportunidade de formulá-la em termos teóricos: “Para que nossa agenda avance, não podemos ver os eleitores ou as comunidades como consumidores, como simples beneficiários da mudança. É hora de os políticos e outros líderes verem os eleitores, moradores ou cidadãos como produtores da mudança.O objetivo de nosso movimento deve ser a agenda completa da criação de comunidades produtivas. É aí que está nosso futuro”.

Além de atenta ao discurso de Obama, Grace tem observado com atenção as reações que ele desperta. Ela considera típicas as frases a seguir, extraídas do blog de uma jovem ativista ambiental: “Obama é o primeiro candidato presidencial que conseguiu construir uma campanha em torno da frase célebre de Gandhi, ‘seja você a mudança que quer ver no mundo’. Por isso, amo seu passado de organizador. É a primeira vez que vejo alguém articular a necessidade de cada um engajar-se no processo, ao invés de vomitar retórica de velha política”.

A eventual vitória de Obama e sua capacidade de mobilização seriam suficientes para que o país mais poderoso do planeta pudesse emitir sinais positivos para a humanidade? Grace não lida com a passividade das apostas, mas com a esperança da ação. Ela faz questão de lembrar Martin Luther King e a advertência feita por ele, pouco antes de morrer: exceto no caso de uma grande revolução de valores, que superasse o racismo, o materialismo e o militarismo, os EUA seriam “tragados pelos longos, escuros e vergonhosos corredores que o tempo reserva aos que possuem poder sem compaixão, vontade sem moral e força sem visão”. Este futuro tenebroso chegou, diz ela, em referência à guerra infinita no Iraque, ao descaso com o aquecimento global, ao abismo de desigualdade que vai se abrindo na sociedade norte-americana.

Grace conclui: “Para ser parte da solução, precisamos reconhecer que somos parte do problema. Ele exige enormes mudanças, não só em nossas instituições mas também em nós mesmos. Embora sua imagem seja inspiradora, Obama sozinho não é o movimento para a mudança. Temos o direito e a obrigação de criar o projeto que queremos que ele represente. Ao invés de projetar em sua pessoa redentora o futuro que desejamos, ao invés de nos enxergar apenas como seguidores de um líder carismático, podemos e devemos ser os líderes pelos quais esperamos”.

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Bancos "socialmente responsáveis": marketing e realidade

Pesquisa do IDEC revela: prática das maiores instituições financeiras do país, que procuram se apresentar como sustentáveis, está a anos-luz do discurso

A emergência do conceito de “responsabilidade social” das empresas, e sua rápida penetração no mundo da política e das relações sociais, é um avanço notável. Significa que as sociedades estão questionando, na prática, uma das idéias centrais do capitalismo: a de que o interesse egoísta é o motor principal da riqueza e da felicidade coletivas. Esta mudança cultural tem efeitos práticos evidentes: ela potencializa as ações da sociedade civil para resistir às ações predatórias do capital e para construir novas lógicas e relações.

Exatamente por isso, é muito importante separar o joio do trigo. Como o conceito de “responsabilidade social” empresarial é, ao mesmo tempo, recente e charmoso, há sempre o risco de que seja apropriado. Corporações interessadas em projetar imagem positiva, e com amplo acesso à mídia, podem alegar que são socialmente responsáveis, para desviar a atenção da opinião pública sobre suas práticas condenáveis.

A julgar por um trabalho de envergadura, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), há uma semana, este parece ser o caso do setor financeiro, no Brasil. Criticado há muito por constituírem cartel, abocanharem parte importante da riqueza pública (via juros da dívida pública) e cobrarem, na concessão de crédito a clientes, taxas de juros típicas de agiotagem, o setor adotado a estratégia de associar sua imagem à responsabilidade social — em especial a proteção à natureza e a mobilização contra o aquecimento global. Quase todos os grandes bancos veicularam maciçamente, nos últimos meses, campanhas publicitárias caríssimas, coincidentemente com o mesmo sentido. O cartel, ao que parece, também atua em conjunto na construção de imagem.

Mesmo que os bancos respeitassem o ambiente, já seria tentativa de iludir os cidadãos: cuidar da natureza é álibi para a devastar o patrimônio dos contribuintes e dos consumidores. Mas o que o IDEC mostra, com base num vasto levantamento, é que, além de ilusória, a propaganda é enganosa. Ao avaliar (numa escala de um a cinco) as práticas trabalhistas, ambientais e de respeito ao consumidor das oito instituições financeiras com mais de um milhão de clientes no país (em ordem alfabética, ABN Amro Real, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú, Santander e Unibanco), o IDEC atribui-lhes “notas” que oscilam entre 1,51 (tenebrosos 3,02, numa escala de um a dez) e 2,75 (medíocres 5,5, de um a dez). O ranking é o seguinte:

ABN Anro Real: 2,75
Bradesco: 2,60
Itaú: 2,41
Banco do Brasil: 2,21
Caixa Federal: 1,93
HSBC: 1,73
Santander: 1,51
Unibanco: 1,51

O relatório completo (104 páginas, formato pdf) pode ser baixado aqui. Observação sugestiva: uma pesquisa nas páginas brasileiras do Google levava a crer, até a noite de domingo, que nenhum dos jornais brasileiros de maior circulação havia noticiado algo a respeito do estudo.

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César Benjamim, dinheiro e mercados

Em sua primeira coluna quinzenal na Folha, o rigor, a erudição e capacidade de instigar dos bons tempos

O texto com que o economista e editor César Benjamin inaugurou, neste sábado (23/2), sua coluna regular no jornal de maior circulação do país contrasta com a frivolidade à qual a mídia se entrega um pouco mais, a cada dia. Disposto a debater os solavancos recentes das finanças mundiais, César propõe duas hipóteses de longo alcance: a) um sistema monetário internacional baseado na hegemonia de uma única moeda, controlada por um único Estado-Nação, será crescentemente inviável. A instabilidade do dólar só tende a se agravar; b) a existência da moeda, do comércio e da própria economia como um terreno autônomo é algo datado historicamente — que pode (e deve) ser revertido. Durante milênios, os atos de “produzir, trocar e adquirir (…) existiam apenas embutidos em uma ampla rede de instituições e compromissos, sociais e políticos, que lhes conferiam sentido e lhes impunham limite”. A “libertação” da economia, ocorrida há poucos séculos, e a partir da Europa, deu-lhe (à economia) poder para impor sua lógica sobre todos os demais domínios da atividade humana.

A segunda hipótese inspira-se, evidentemente, na teoria de alienação de Marx. Mas em seu breve artigo, César parece sugerir que a existência de uma esfera econômica autônoma é algo intrinsecamente mau — o que coincidiria com as idéias de certo catolicismo de esquerda. É como se o surgimento dos “indivíduos livres”, que marca o início da modernidade, não fosse algo positivo; ou como se devêssemos lamentar o fato de tais indivíduos poderem produzir, criar e trocar sem se submeter a poderes como os do senhor feudal, da Igreja, do clã, da família ou da comuna primitiva.

O tema é importantíssimo não tanto para discutir o passado, mas principalmente para a tarefa que o próprio César enuncia, com brilhantismo, ao final de seu texto: encontrar uma forma para “religar a economia ao mundo da vida” — ou, em outras palavras, para superar o capitalismo. A pergunta é: por que caminhos? Reinstituir a submissão dos indivíduos a estruturas hierárquicas (por, exemplo, o partido ou o plenejamento econômico controlado por ele, na experiência do “socialismo real”)? Ou superar os limites do indivíduo oferecendo-lhe a possibilidade de estabelecer múltiplas redes de solidariedade, por meio das quais ele se torna capaz de compreender e transformar cada vez mais profundamente o mundo?

O texto de César está em nosso clip de hoje.

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Petrobrás eleita a petroleira mais sustentável

Estudo de consultoria internacional usa como base respeito a normas trabalhistas, balanço sócio-ambiental e Objetivos do Milênio. Relato abaixo é da Agência Envolverde

“A Petrobras foi reconhecida através de pesquisa da Management & Excellence (M&E) a petroleira mais sustentável do mundo. Em primeiro lugar no ranking, com a pontuação de 92,25%, a Companhia é considerada referência mundial em ética e sustentabilidade, considerando 387 indicadores internacionais, entre eles queda em emissão de poluentes e em vazamentos de óleo, menor consumo de energia e sistema transparente de atendimento a fornecedores.

“Os critérios para o ranking levaram em conta a adequação a padrões internacionais, como os da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Pacto Global da ONU, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), a presença no Índice Dow Jones de Sustentabilidade e a apresentação do Balanço Social e Ambiental, segundo as orientações do Global Reporting Initiative (GRI).

“A M&E é uma consultoria espanhola especializada na avaliação de companhias, bancos, fundos de investimento, analistas de mercado e consultores, sendo uma das instituições mais respeitadas pelo mercado de investidores e pela mídia nos Estados Unidos, Europa e América Latina. A pesquisa foi realizada diretamente em todas as companhias e através de veículos de comunicação. No segmento da indústria de petróleo e gás, a consultoria mede o desempenho em governança corporativa, ética, transparência, sustentabilidade e responsabilidade social.

“Na última pesquisa, publicada em 2007, a Petrobras havia sido classificada na 2ª posição com pontuação de 89,64%, atrás da Shell (90,16%) e seu avanço foi o mais acentuado entre os participantes, sendo apontada como a empresa que teve o progresso mais rápido entre as maiores companhias mundiais do setor nos últimos três anos.

“Esse resultado demonstra o reconhecimento do compromisso da Companhia com as questões de governança, transparência, responsabilidade social e ambiental e no relacionamento com investidores e na comunicação com as demais partes interessadas.

“Conheça o ranking das empresas e suas pontuações

1º Petrobras – 92,25%
2º Total – 91,21%
3º BP – 89,15%
4º StatoilHydro – 89,15%
5º Shell – 87,86%
6º ENI – 78,55%
7º Repsol – 74,68
8º OMV – 73,39
9º Chevron – 72,87%
10º ConocoPhillips – 72,35%
11º ExxonMobil – 67,96%
12º Pemex – 66,93%”

(Transcrito de matéria da Agência Envolverde)

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Rumo a uma Rede Diplô de Pesquisas?

Desafio: transformar em bom jornalismo uma impressionante massa de informações alternativas — e muito qualificadas — sobre nosso tempo

Ainda em fase experimental, o Blog da Redação de Le Monde Diplomatique Brasil existe graças a uma grande novidade no mundo da comunicação — algo paralelo, porém ainda menos notório, que a revolução dos blogs. Na última década, multiplicaram-se as fontes de informação, acessíveis via internet, sobre todos os temas internacionais relevantes. As versões web da “imprensa alternativa” tradicional têm importância neste processo — mas já não estão sozinhas. Graças aos sites de centenas de organizações, movimentos cidadãos ou mesmo indivíduos, tornou-se possível obter versões, análises e dados distintos dos oferecidos pela mídia tradicional. Sobre qualquer fato ou debate relevante.

Este material é, quase sempre, muito mais profundo que o publicado nos jornais e sites comerciais. Está, porém, disperso. Quase sempre, é redigido em linguagem para iniciados, sem o emprego das técnicas de popularização do bom jornalismo.
Le Monde Diplomatique Brasil organizou, ao longo de anos, um enorme banco de dados com estas fontes — algumas centenas. Organizar uma pesquisa permanente nesta base é algo que só poderá ser concretizado por meio de uma grande rede de colaboradores. O jornal está disposto a formá-lo. A tarefa é inédita. É preciso, inclusive, construir um método e uma rotina de pesquisa. Os interessados em participar da aventura podem deixar mensagens e contatos na seção de comentários

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Redes livres, criatividade e repressão

A prisão, em São Gonçalo (Baixada Fluminense), de Bruno Assumpção, um jovem empreendedor especialista em redes de comunicação, pode abrir um debate indispensável no Brasil. Bruno descobriu como distribuir, para algumas dezenas de vizinhos, o sinal de banda larga de internet que recebe de uma operadora telefônica. Bolou um modelo de negócio bem-sucedido: por R$ 30, mais uma placa para conexão sem fio, é possível navegar sem limite de tempo, com velocidade razoável, deixando livre o telefone. Deixou de freqüentar as estatísticas de desocupação.

Foi preso há cerca de um mês, porque as leis de propriedade que herdamos do passado são incapazes de lidar com a idéia dos bens comuns — embora novas relações sociais, e o avanço da tecnologia os multipliquem sem cessar. Parte da história de Bruno (que aguarda julgamento em liberdade) está contada numa ótima reportagem de Ítalo Nogueira, publicada na Folha de hoje (sim, há alguns resquícios de bom jornalismo na mídia comercial…) e reproduzida em nosso clip.

Há centenas de Brunos espalhados pelas periferias do Brasil. É pelas quebradas que está chegando, no país, a idéia das redes livres. Em várias partes do mundo, coletivos dispostos a lutar pela liberdade de informação estão montando redes alternativas às comerciais — e quase sempre gratuitas. A tecnologia sem fio permite que os sinais da internet sejam captados em qualquer parte do mundo, por um custo irrisório. As informações e serviços disponíveis na rede são produzidas por bilhões de pessoas. Que sentido há em oferecer a mega-empresas o direito de cobrar por eles?

No clip há mais informações e links sobre redes livres que estão sendo montadas em muitas partes do mundo. O blog produzirá matéria a respeito. Para contribuir, envie seu comentário, informação ou análise.

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Os novos sinais da crise financeira

Nova queda das bolsas européias e asiáticas revela que persiste o temor de quebradeiras em dominó. Há quem fale em “colapso do sistema de crédito”

As bolsas de valores de boa parte do mundo voltaram a cair hoje. As perdas chegaram a mais de 4% em Xangai, 1,4% em Tóquio, em torno de 1% na Europa. O declínio reflete algo muito mais grave. Novos fatos estão confirmando que as instituições financeiras continuarão a sofrer perdas enormes, com a inadimplência de seus devedores; que, em conseqüência, elas tornarão o crédito mais difícil e mais caro, o que gerará mais quebradeiras, e assim por diante. Se esta espiral coincidir com uma recessão severa, particularmente nos Estados Unidos, estará formado um círculo vicioso gravíssimo, possivelmente inédito desde 1929. Com a economia parada, as perdas financeiras não poderão ser compensadas com novos negócios — o que gerará falências, desemprego e desorganização produtiva.

Eis alguns dos sinais de inadimplência galopante:

> Nas 6 primeiras semanas de 2008, os calotes de empresas norte-americana de primeira linha, do ponto de vista do crédito, ficaram entre 4 e 5bilhões de dólares. O que assusta não é o número, mas o fato de a inadimplência, neste curto período, superar a de todo o ano passado.

> Espera-se que os calotes de empresas menos quotadas (as que emitem os chamados junk-bonds) sejam dez vezes maiores que em 2008.

> Também tem havido perdas nos empréstimos feitos no interior do sistema financeiro, a investidores e fundos de hedge. Ontem, o banco Credit Suisse anunciou perdas de US$ 2,85 bilhões neste segmento. O total das perdas é estimado em US$ 146 bi.

> O encarecimento do crédito já é uma realidade. As empresas norte-americanas estão pagando mais, por empréstimos, do que no início do ano — apesar de, nesse período, a taxa básica de juros, fixada pelo Banco Central (o FED) ter recuado 1,25 pontos percentuais.

O medo do colapso chegou aos grandes diários financeiros. Martin Wolf um dos mais celebrados articulistas do Financial Times, repercutiu ontem (veja nosso clip) as previsões do economista turco-norte-americano Nouriel Roubini, um dos que mais tem se debruçado sobre a crise — e um dos mais pessimistas. Roubini publicou recentemente dois artigos sobre a crise. No primeiro, fala sobre os “12 passos para um desastre financeiro” (elenca, entre outros, a maior crise imobiliária da história dos EUA; calotes em créditos não cobertos por seguros, como os de cartões e financiamento de carros; quebra de seguradoras monoline, especializadas em apenas um tipo de cobertura de riscos; falência de algum grande banco; onda de moratórias de empresas; quebras no chamado “sistema financeiro das sombras” (shadow financial system), responsável por movimentações gigantescas e não coberto por ações dos Bancos Centrais; queda muito forte nas bolsas; e uma espiral de “queima de ativos”, na qual pessoas e empresas endividadas vendem o que têm a qualquer preço, para safar-se de dívidas, provocando afundamento dos preços.

No segundo artigo, Roubini aposta que os Estados Unidos, centro do sistema financeiro internacional, e o FED, não estão preparados para enfrentar a crise — entre outros motivos, porque: a) quase não há mais espaço para reduzir os juros no país (sem provocar uma fuga maciça de investidores); b) o Estado tem poucos meios para intervir no mercado imobiliário, foco das perdas principais; c) o sistema financeiro das sombras tornou-se muito grande e é quase inteiramente opaco.

Mais:

> Ler também, sobre as repercussões da crise no Brasil, a postagem seguinte

> Le Monde Diplomatique acompanha a atual crise financeira há meses. Leia, por exemplo:

No fundo, a desigualdade, de Flávio Dieguez (fevereiro de 2008).
Até onde irá a crise financeira
, de François Chesnais (novermbro de 2007)
O mundo refém das finanças
, de Frederic Lordon (setembro de 2007).

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Arriscada euforia do Banco Central

A zeragem da dívida externa clássica não significa que o país é imune a crises externas. Talvez seja preciso recolocar em pauta o controle dos capitais

Os créditos do Estado e de empresas brasileiras no exterior superaram, em janeiro, a dívida externa, anunciou com alarde, ontem (21/2), o Banco Central. Economistas conservadores sugeriram que o fato atesta a necessidade de manter a ortodoxia econômica praticada, segundo eles, tanto por FHC quanto por Lula. Acrescentaram que, agora, o país está muito menos sujeito às turbulências financeiras internacionais. A segunda afirmação é muito temerária. A primeira, simplesmente falsa.

As chamadas “dívidas externas” perderam há muito sua centralidade no sistema financeiro internacional. Sob influência do neoliberalismo, os países abriram suas fronteiras para a entrada e saída de investimentos e moedas estrangeiras. Salvo raras exceções, todos estão interligados no mercado global de crédito. Por isso, quase não há sentido sequer no conceito “dívida externa”.

Os investidores de fora — bancos, fundos, transnacionais que obtêm boa parte de seus lucros em operações financeiras — atuam dentro do país. Aplicam em títulos do governo, ações, mercadorias. Obtêm rendimentos incomparáveis aos da velha “dívida externa”: pelo menos o dobro, nos papéis do governo; às vezes muito mais, em outras aplicações. Retiram e reingressam fundos com enorme facilidade, tendo quase sempre como base paraísos fiscais. Beneficiam-se de isenções de impostos. Têm a companhia, nestas operações, de grandes investidores brasileiros. A lógica destes últimos é idêntica à dos “estrangeiros”. Inclui retirar o dinheiro do país, se houver sinal de prejuízo à vista. Nas crises cambiais de 1998-99 e 2002, quem tirou mais maciçamente divisas foram instituições brasileiras.

Como as fronteiras brasileiras à entrada e saída de divisas foram abertas, de nada adianta “zerar a dívida externa”. Se os investidores sentirem que podem evitar perdas, retirando dinheiro do país, irão fazê-lo com facilidade, e em enorme volume. Só o estoque da dívida pública interna é de cerca de 1,2 trilhão de reais. Se 20% desse dinheiro fosse externado, haveria uma crise cambial semelhante às duas anteriores.

Há controvérsias — e sinais em sentido oposto — sobre os efeitos globais da crise norte-americana. Muitos analistas falam em “desacoplamento”: diante de uma recessão nos EUA, outros mercados, em especial os emergentes, estariam prontos para manter a economia mundial em movimento. A manutenção das cotações excepcionalmente altas das matérias-primas parece confirmar, por enquanto, esta hipótese. O petróleo mantém-se em torno de US$ 100 o barril. A Vale do Rio Doce acaba de obter reajuste de 71% no minério de ferro vendido ao Japão e à Coréia. Quem pagaria tais preços, se houvesse, no horizonte, a sombra de uma recessão global? No caso específico do Brasil, há uma grande diferença, em relação à 1998-99 e 2003. Graças em parte ao próprio aumento das matérias-primas, o país, que tinha déficit comercial nas ocasiões anteriores, passou a um superávit inédito.

Mas, e se a recessão norte-americana agravar-se e evoluir para um colapso financeiro? (uma hipótese possível, como mostra nossa postagem anterior). Neste caso, será preciso recolocar em pauta a proposta de controle dos fluxos de capital. Foi levantada há anos, por economistas, ONGs e movimentos sociais. Desdobrou-se em propostas muito concretas: estabelecer, por exemplo, um prazo mínimo de permanência para os investimentos externos; ou elevar os impostos (como IOF) sobre a retirada de dinheiro, em caso de crise cambial.

A proposta perdeu um pouco de impacto nos últimos anos, quando prevaleceu a bonança nos mercados financeiros. Para os neoliberais, é uma heresia. Para o país, a depender das circunstâncias, pode ser uma salvação.

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CESP: privatização sem debate?

A Centrais Elétricas de São Paulo (CESP) — terceira maior geradora de energia do país — pode ser privatizada a toque de caixa, sem nenhum debate com a sociedade. Na última terça-feira (19/2), o governo de São Paulo anunciou que pretende publicar o edital para a venda da empresa na próxima segunda (25/2) e realizar o leilão exatos 30 dias depois (26/3). O Blog da Redação e a edição brasileira de Le Monde Diplomatique convidam os leitores a fazer comentários e postar análises sobre o tema.

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Depois de Fidel, o quê?

Haverá espaço para uma “terceira via”, distante tanto de Miami quanto de um regime à chinesa?

Consumado o afastamento de Fidel Castro em Cuba, as especulações da mídia voltam-se para a escolha de seu sucessor. Aposta-se, no momento, que a Assembléia Nacional, reunida no próximo domingo, confirmará o “histórico” Raul Castro presidente, mas apontará o “renovador” Carlos Laje como vice. Falta um debate mais profundo. Que significaria, para Cuba, a “renovação”?

Ajudam a sondar o futuro dois textos publicados por Le Monde Diplomatique Brasil em junho do ano passado. Carlos Gabetta, editor do jornal na Argentina, escreve sobre as “promessas e misérias do ‘socialismo real'”, do qual Fidel é, certamente, um dos últimos símboos vivos. O repórter Pablo Stefanoni, descreve Cuba antes da transição — e especula sobre suas perspectivas futuras. As grandes dificuldades que marcaram os anos 90, conta ele, ficaram para trás. Os apagões elétricos são mais raros, a comida é menos exígua. O PIB, que despencou 35% nos quatro anos primeiros anos após o fim da União Soviética, tem crescido agora a taxas em torno de 7% ao ano. O suprimento de petróleo é assegurado pela Venezuela e a valorização mundial dos produtos primários (como o níquel, que Cuba produz em abundância) elevou as receitas de exportação. Não é nada que autorize a falar num período de prosperidade ou conforto. A produção industrial é risível; o sistema de planejamento central burocrático inibe iniciativas, o que resulta em quase nenhuma variedade alimentar e em dificuldades constantes de abastecimento de produtos básicos.

Mas a novidade mais original vem agora: o declínio da força ideológica do neoliberalismo também abriu o leque das alternativas políticas para o futuro. Há alguns anos, vislumbravam-se apenas duas opções. Após Fidel, o Partido Comunista tentaria preservar o regime, aceitando o mínimo de mudanças. Já os EUA, aproveitando-se da ausência do líder carismático, tentariam promover a volta ao capitalismo clássico, incentivando revoltas populares desestabilizadoras. Agora, as variáveis são outras.

(continua na próxima postagem)

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