Outras Palavras

Ícone

Blog da Redação & Oficina de Pautas

Crise financeira global: quem pagará a conta?

Novos sinais de contágio derrubam o mito da “eficiência” dos mercados e sugerem que, para evitar colapso, pode necessária intervenção estatal maciça. Mas qual seria seu sentido, num ano marcado por eleições presidenciais nos EUA?

A perspectiva de uma nova redução da taxa básica de juros norte-americana (talvez de um ponto percentual) está estimulando uma ligeira alta nas bolsas de valores de todo o mundo, nesta terça-feira (18/3). Nada indica, porém, que os graves desequilíbrios que provocaram uma nova onda de tremores, entre o final da semana passada e ontem, tenham sido sanados. Ao contrário: a decisão mais importante da reunião de emergência, realizada no domingo, pelo banco central dos EUA (o FED), foi autorizar empréstimos de socorro também ao chamado “mercado financeiro das sombras” (shadow financial market), que não está submetido a regulamentação ou controle por instituições públicas. Esta medida, mais o crédito de 30 bilhões de dólares oferecido ao banco JPMorgan/Chase, para que comprasse o banco de investimentos Bear Stearns, revela que o FED está apavorado. O temor principal é que mesmo a quebra de uma instituição financeira de médio parte (como o Bear Stearns) desencadeie um dominó de calotes, com desdobramentos imprevisíveis.

A última série de insolvências começou na quinta-feira passada, (13/3), quando o fundo hipotecário Carlyle Capital Corportion (CCC), um dos mais importantes dos Estados Unidos, entrou em colapso. Na sexta (14/3), o Bear Stearns, quinto maior banco de investimentos do país, deu sinais de que não tinha meios de atender nem a seus compromissos financeiros, nem aos investidores que desejavam resgatar suas aplicações.

Os dois casos são emblemáticos. Ligado ao Grupo Carlyle (um gigante das finanças norte-americanas), e tendo em seu conselho personalidades como o ex-presidente George Bush (o pai), o CCC possuía ativos avaliados em 21 bilhões de dólares. Parte deste patrimônio, porém era constituída de títulos hipotecários que perderam valor, com a onda de inadimplências no setor imobiliário. Em conseqüência, o CCC deixou de honrar, nos últimos dias, compromissos de US$ 400 milhões, não conseguiu chegar a acordos com seus credores e tornou-se ele próprio insolvente.

A dúvida: até onde a espiral de calotes continuará se expandindo?

O redemoinho que devorou o Bear Stearns é ainda mais impressionante. Ainda na sexta-feira, depois do anúncio de suas dificuldades e de uma queda de quase 50% na cotação de suas ações, o valor de mercado do banco era de 3,5 bilhões de dólares. Só sua sede magnífica é avaliada em US$ 1 bi. Mas a instituição foi entregue ao JPMorgan/Chase, no domingo, por apenas US$ 236 milhões. Mesmo assim, e apesar da garantia de US$ 30 bi oferecida pelo FED, “é muito cedo para dizer que foi um bom negócio”, advertiu a revista Economist. Não se sabe o volume das perdas do Bear Stearns com títulos baseados em hipotecas imobiliárias. A dúvida é: até onde a espiral de calotes continuará se expandindo?

Há um agravante: a inadimplência está tornando o crédito, nos EUA, mais escasso e mais caro, como mostrou este blog há alguns dias. A dificuldade de levantar dinheiro pode transformar-se numa bola-de-neve, desencadeando novas falências e restringindo ainda mais as operações financeiras, numa sinergia sinistra. Os problemas têm colocado cada vez mais em evidência o analista turco-norte-americano Nouriel Roubini, que considera necessário incluir, entre os desdobramenos possíveis da crise, o “derretimento do sistema financeiro”.

Num comentário postado quarta-feira, em seu blog, o próprio Roubini sugere que “qualquer solução efetiva para o desarranjo dos mercados de crédito vai requerer envolvimento do Estado em escala muito maior”. É uma constatação de enorme importância poítica. Primeiro, porque enterra um dos grandes mitos da era neoliberal: a suposta capacidade dos mercados para regularem a si próprios e à vida social. Segundo, porque coloca em pauta o sentido da ação a ser adotada contra a crise. Se cabe ao Estado evitar o colapso financeiro, se as finanças não são capazes de salvar a si próprias, então, em teoria, a sociedade teria o direito de debater como a intervenção deve ser feita.

Até o momento, todas as iniciativas estatais adotadas significaram vultosas concessões aos próprios mercados. Na terça-feira (11/3), dois dias apenas antes do colapso do CCC, o presidente do FED Ben Bernanke, havia anunciado a abertura de mais uma linha de crédito — agora de 200 bilhões de dólares — em favor das instituições financeiras. Numa atitude raras vezes adotada por um banco cental, o FED aceitará, como garantia para os empréstimos que concederá, até mesmo bônus imobiliários que sabidamente podem não ser resgatáveis. É a terceira medida semelhante desde agosto só nos EUA. Os bancos centrais europeu e japonês também injetaram centenas de bilhões em suas economias, até o momento sem nenhum resultado efetivo.

“A pior crise desde os anos 1930. Um evento político decisivo”

Martin Wolf, um festejado colunista do diário britânico Financial Times alerta, num comentário publicado esta quarta-feira (12/3): “prejuízos de US$ 2 trilhões a US$ 3 trilhões [são os cálculos de Nouriel Roubini sobre os efeitos da crise] descapitalizariam o sistema financeiro. O governo teria de resgatá-lo. O meio mais plausível de fazê-lo seria nacionalizar todos os prejuízos. (…) A decisão teria imensos desdobramentos. Teríamos a pior crise financeira do país desde os anos 1930. Seria um evento político decisivo”.

Você leu corretamente. Nos mercados financeiros globais, já se discute a hipótese de uma mega-operação de salvamento do sistema, algo imensamente superior ao Proer brasileiro, que saneou três bancos com recursos públicos logo após a adoção do Plano Real, em 1994. Por enquanto, porém, o resgate é discutido sem alarde. Não se fala sobre ele nos Parlamentos, nas entrevistas coletivas dos ministros, no horário nobre da TV. Em democracias de baixa intensidade, como as que vivemos, ele seria normalmente apresentado como a única alternativa para evitar o colapso, o remédio amargo que a sociedade será forçada a engolir para evitar um mal pior. Por exemplo uma quebradeira de empresas em larguíssima escala, capaz de paralisar a economia e jogar rapidamente milhões de trabalhadores no desemprego.

O “derretimento” do sistema financeiro teria de fato conseqüências trágicas — mas o socorro aos bancos não é a único remédio contra ele. Tanto nos EUA quanto na Alemanha, a crise dos anos 1930, por exemplo, foi enfrentada principalmente com ações do Estado direcionadas para a geração de emprego e a redistribuição de renda. Em conferência recente, nos EUA (publicada por Le Monde Diplomatique Brasil), a escritora e cientista política Susan George sugeriu, como alternativa para o colapso, um “keynesianismo ambiental”, cujo núcleo seriam obras e iniciativas públicas voltadas para a preservação do planeta (como ferrovias, centrais elétricas eólicas, metrôs, etc). O próprio Martin Wolf lembra, no Financial Times: uma possível saída para a crise atual seria “elevar as rendas nominais” — mesmo se resultasse no “tributo da inflação”, que “em circunstâncias extremas deve ser atraente”.

Uma particularidade no cenário internacional amplia as esperanças de escapar do pensamento único, e imaginar uma solução como a proposta por Susan. Os EUA, epicentro da crise, vivem uma conjuntura quase única: eleições presidenciais coincidem com a sensação de empobrecimento e isolamento internacional. Não seria uma grande oportunidade para questionar a saída ortodoxa de salvar a banca, e propor alternativas capazes de construir outro sistema financeiro?

Anúncios

Filed under: 1, , , ,

Brasil começa a debater possível contágio

Ministério da Fazenda e Banco Central têm visões e receitas opostas. A boa notícia: ao contrário do que ocorreu em crises anteriores, a elevação dos juros não é a única alternativa em debate

As ilusões de que o Brasil está imune aos desdobramentos de uma crise financeira global começaram a se dissipar claramente esta semana. Alguns fatos indicam que a ficha está caindo.

>> O ministério da Fazenda adotou, na quarta-feira (12/3), medidas que procuram reduzir a vulnerabilidade externa do país, por meio de mudanças nas regras para a entrada e saída de moedas estrangeiras. As decisões são tímidas e mesmo contraditórias. Sua importância está no fato de indicarem que o governo considera, entre as alternativas para a crise, a hipótese de intervenção pública nos mercados. Como se vê em outra postagem, nos EUA (epicentro da crise), ações não-ortodoxas do Estado já são consideradas por alguns analistas como essenciais para enfrentar a onda de falências.

>> Um dia depois, o Banco Central (BC) divulgou a ata da última reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom). O documento revela que o banco também está preocupado com as turbulências externas, mas pensa em resolvê-las com ações de sentido contrário às do ministério da Fazenda. Examina a hipótese de elevar ainda mais os juros reais — que já ocupam, há vários anos, a posição de mais altos do mundo (veja tabelas sobre juros e inflação de dezenas de países na revista The Economist). Ou seja: ao invés de regular os mercados, pretende seduzir os investidores oferecendo-lhes rendimentos ainda maiores. É a mesma receita adotada nas crises cambiais de 1995, 1998-99 e 2002, sob o governo FHC.

>> As medidas adotadas na quarta foram precedidas de um debate no Palácio do Planalto. No domingo (9/3), Lula ouviu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles e os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Delfim Netto. Belluzzo é conhecido por sua visão crítica sobre os mercados financeiros internacionais. Sustenta há anos a necessidade de estabelecer controles importantes sobre os mercados de capitais. Delfim também se incomoda com a posição subalterna do Brasil na hierarquia das finanças mundiais. Mas liderou em 2005 — junto com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci — um movimento que procurava enfrentar o problema reduzindo brutalmente as despesas não-financeiras da União. Ao longo dos anos, isso permitiria, segundo ele, resgatar parte importante da dívida, reduzindo a dependência e o pagamento de juros ao capital financeiro.

Como a crise nos EUA e a possibilidade de contágio tendem a se agravar, tudo indica que este debate chegará rapidamente à sociedade. Suas nuances são muito complexas e serão acompanhadas pelo blog. Mas a questão essencial é a que apareceu esta semana. Diante de solavancos que expõem a enorme fragilidade da arquitetura financeira global, a sociedade brasileira tem o direito de propor uma nova relação entre o país e os mercados? Ou a única saída é mais do mesmo, como sugere o Banco Central?

Filed under: Sem categoria, , , ,

A guerra espreita o Líbano

Presença de barcos de guerra dos EUA e provocações de Israel podem sinalizar que Telavive quer vingar derrota de 2006 

As tensões profundas do Oriente Médio podem manifestar-se em breve no Líbano, revela matéria muito relevante da jornalista Rebbecca Murray, publicada pela Agência IPS.

Tendo como fonte principal o analista Alistair Crooke, coordenador da ONG Conflicts-Forum, em Beirute (http://conflictsforum.org), o texto enxerga sinais de que o Líbano pode estar se tranformando no principal foco de tensão do Oriente Médio. Num país historicamente dividido, marcado por guerras civis e com presidência vaga, Israel e EUA estariam movimentando-se para fustigar forças políticas e sociais como o Hezbollah e seus aliados internacionais — especialmente Síria e Irã.

Os dois fatos concreto mais marcantes são: a) o assassinato em Beirute, num ataque aéreo de Israel, de  Imad  Mughniyeh, líder do Hezbollah e possível comandante da resistência do grupo contra a invasão do sul do Líbano por Israel, em setembro de 2006 — um combate que terminou com grave derrota dos israelenses; b) a presença, em águas do Líbano, do destróier norte-americano USS Cole — substituído em seguida por seis fragatas — a pretexto de “preservar a estabilidade política do país”. É a primeira vez que os EUA enviam embarcações ao Líbano desde 1983, auge da guerra civil.

Estes movimentos se dão num cenário de crise interna. O Parlamento adiou há dias, pela 16ª vez, a elição do presidente do país, um posto vago desde o ano passado, quando terminou o mandato de Emile Lahoud. Legislativo e opinião pública dividem-se entre o apioio ao governo do primeiro ministro Fouad Sinoira, visto com pró-ocidental e a coalizão entre o Hezbollah e o grupo cristão comandado pelo general Michel Aoun. Ambos têm laços com a Siria e o Irã.

A matéria da IPS sugere que Israel não digeriu a derrota de 2006, e que as provações impostas à população palestina na Faixa de Gaza poderiam ter por objetivo a deflagração de um incidente qualquer: por exemplo, o disparo de foguetes contra território israelense a partir do Líbano. Numa nova guerra, comenta-se, Israel ocuparia de maneira muito mais dramática a região libanesa ao sul do rio Litani, próxima a sua fronteira. O Hezbollah reagiria também com vigor e poderia haver envolvimento de Síria e Irã.

A principal garantia contra a guerra seria, no momento, a presenca, na fronteira, de 13 mil soldados de uma força de paz da ONU — formada principalmenhte por italianos, franceses e espanhóis.

Filed under: Sem categoria, , , ,

A China é o alvo dos EUA

Uma análise sobre o orçamento militar dos EUA para 2009 indica que suas prioridades têm muito pouco a ver com a “guerra contra o terror”

Conhecido pela profundidade de suas análises o thinktank norte-americano Foreign Policy in Focus (FPIF) [Política Externa em Foco] acaba de publicar uma análise sobre o orçamento militar proposto pela Casa Branca para o ano fiscal de 2009. O texto, redigido por Um artigo de Michael Kare, revela que a preocupação principal é manter superioridade sobre a China — ainda que, em palavras, o esforço bélico atual dos EUA volte-se contra o terror islâmico e os “Estados-vilões”.

Klare, professor de Estudos sobre a Paz e a Segurança Global na Universidade de Hampshire, demonstra que o item mais robusto no orçamento de 2009 é a “modernização estratégica”. Ela abocanha US$ 183,3 bilhões — 36% de despesas totais estimadas em US$ 515,4 bilhões (semelhantes a todo o PIB da Argenina…). Entre os itens em que se desdobra, estão a compra de 40 super-caças F-22 (considerado “o mais avançado avião de combate da atualidade”), por US$ 4,1 bilhão; a construção de um porta-aviões de novo tipo (o CVN-78), que deverá dar início à substituição dos navios da classe Nimitz e é equipado, entre outros, com um novo modelo de motor nuclear, um sistema eletromagnético para lançamento de aviões, radares s avançados e outras inovações; o lançamento de novas classes de destroyers e submarinos.

Klare ressalta que nenhuma destas armas presta-se a combater redes de terror ou Estados com a Síria ou Irã, dotados de armamento ultrapassado. Seu único, sustenta, só pode ser enfrentar, numa “nova guerra fria”, uma potência capaz de representar uma ameaça ao poderio militar dos EUA.

Filed under: Sem categoria, , , , ,

Páginas

Agenda

março 2008
S T Q Q S S D
« fev   abr »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

RSS Internet

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

RSS Conferência Nacional de Comunicação

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

RSS Conferência Nacional de Cultura

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

RSS Redes de Pontos

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

RSS Pontos de Cultura

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

RSS Pontos de Mídia Livre

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

RSS Pontões

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.