Outras Palavras

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Blog da Redação & Oficina de Pautas

Enfim, a Carta!

“A integração nos faz irmãos, enriquece saberes e sabores e se cristaliza nos âmbitos culturais, sociais e políticos”


Por Carolina Gutierrez

“Cultura popular é reinventar o mundo. É fundir o ouro, o cobre, o chumbo, a prata, é construir os instrumentos, é curtir o couro; é moldar o barro, polir a pedra, tingir a areia, converter penas em coroas verdadeiras, talhar a madeira, tecer as fibras das árvores e, com elas, tecer a fibra da humanidade nova. E cantem livres aos ventos que os levem a uma roda de baile que cultive nossos povos, nutrindo assim a nossa espiritualidade”(Carta das Culturas Populares).

Há 38 anos, precisamente na quarta semana de novembro – mesma semana que aconteceu o II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações -, houve a primeira Reunião Interamericana de Especialistas em Etnomusicologia e Folclore, em Caracas. O resultado foi a Carta do Folclore Americano.

E hoje, o terceiro dia do encontro, culminou com a leitura e apresentação da Carta – documento político que leva em seu conteúdo os anseios, as propostas e os problemas relacionados à cultura popular. A Carta foi construída a partir das contribuições e depoimentos de mestres, mestras e brincantes e visa a “defesa, valorização e a promoção das culturas tradicionais e o respeito à diferença dos povos de todo o mundo”.

Espera-se que os países participantes realmente reconheçam, aceite, incorporem e concretizem as afirmações e as propostas dos mestres e mestras das culturas populares.

Uma comissão de representantes do Brasil e Venezuela foi responsável pela feitura da Carta. Sua construção começou já no primeiro dia, sendo aprimorada e alterada segundo os depoimentos e propostas dos diversos mestres.

Na parte da tarde, ela foi exposta em painéis, onde todos puderam dar suas contribuições de forma espontânea e livre. À noite, foi lida por quatro pessoas de diferentes países: Maria Luiza, do Paraguai, Gil, do Brasil, Carlos, da Venezuela, e Adriana, da Bolívia.

Os principais pontos indicados pela Carta foram: promover a integração e a diversidade, com respeito às diferentes culturas populares, protegendo as raízes de cada uma delas. Para isso, foi enfatizada a necessidade de “atuação do Estado para promover e dar base para multiplicar a sabedoria popular dos mestres, sem ter a participação política como condição”, rompendo com o apoio único às Belas Artes.

A preservação pressupõe educação das crianças e jovens, de forma que a Carta aponta para um casamento entre a cultura e a educação. A proposta é que se valorize a atuação dos mestres e mestras em escolas e universidades. Além disso, o documento indica para a constituição de centros de formação permanente e intercâmbio maior entre os países, promovendo, dessa forma, interculturalidade.

A idéia é que se crie um fundo criar latino-americano e também uma pensão digna aos mestres, para proteção e promoção das culturas populares.

“E, mais que tudo, que a voz e a decisão sejam, a partir de agora e para sempre, dos artistas”

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Salada Mista

A integração por meio da cultura. Onde o cavalo-marinho se mistura com os ritmos bolivianos, o jongo se une com San Benito e o samba pode ser rumba

por Carolina Gutierrez

A noite do segundo dia do II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações – foi de dança, música e festa. Grupos do Brasil, Bolívia e Paraguai apresentaram o brinquedo que é a cultura popular.

Bastião e Mateus estavam lá. Ao som da rabeca e no passo dos trupés, tomaram o palco venezuelano do teatro Teresa Carreño e o transformaram em lugar de brincadeira. Logo depois surgiram o capitão e o soldado. Só faltou mesmo a Catirina. Os arretados personagens do cavalo-marinho, folguedo da região da Zona da Mata de Pernambuco, deram piruetas, fizeram palhaçadas e dançaram muito. O sotaque cadenciado do povo lá do norte, não impediu que mestres e mestras de toda a América Latina se divertissem e se maravilhassem diante de tamanha beleza.

Já as bolivianas de longas tranças do grupo de dança Alfredo Domínguez apresentaram uma dança em que faziam evoluções e manobras com lenços brancos. Os músicos de Rijchariy tocaram músicas populares misturadas com um certo rock ‘n roll à La Bob Dylan.

Depois foi a vez do grupo paraguaio Los Corales. Cantaram em guarani e fizeram até uma canção à revolução, citando Fidel.

O dia foi de verdadeiro intercâmbio cultural. Mestres e mestras de todas as partes trocavam toadas, propunham versos, dançavam juntos. Tanto que o mestre Vidal Colmenaros, se expressou de forma enfática e divertida: “Com toda essa troca, nos sentimos em uma salada mista!”

Na parte da manhã, os mestres estavam todos reunidos para contar suas experiências e mostrar um pouco de sua cultura popular.

Os participantes do encontro conheceram a catira brasileira através da destreza dos pés do mestre Badia Medeiros. Sapateou, cantou , tocou viola. Até a música Brasília do Pagode entrou na roda. O mestre do sertão, como ele se autodenominou, está há mais de 58 anos brincando a catira e promovendo a folia de reis. Segundo ele, a folia de reis é devoção. A catira, diversão.

Mestre Badia falou ainda sobre a importância da participação dos jovens nas culturas populares. Para ele, os mais novos são o futuro das manifestações. “Estamos resgatando os velhos frutos e plantando novos frutos”.

O “repentista” venezuelano Ignacio Muñoz concordou com mestre Badia . “Temos que nos unir mais, cooperar mais e multiplicarmos culturalmente. Isso só é possível se ensinarmos nossas culturas populares às novas gerações”.

Com métrica afiada, mestre Ignacio soltou a voz. Chamou um músico da platéia e explicou o que era uma estrofe em décima na rima de uma canção.

Gil do Jongo, ou melhor ,o mestre Gilberto Augusto da Silva, entrou em cena. “Voy hablar el español macetado, o que eu macetar ele traduz ”.

Gil contou um pouco do histórico do jongo. Disse que a manifestação é de origem africana – dos negros bantos – e existe há mais de 150 anos em Piquete, interior de São Paulo. Gil falou que existiu uma lei proibindo o jongo. Fracassou. “A lei foi tão boa, que 150 depois nós continuamos a bailar…a dançar!”.

Citando as revoluções agrícola, industrial e tecnológica, afirmou que a integração só será alcançada se houver uma revolução de idéia, coração e culturas.

Depois da fala, mestre Gil fugiu do microfone e caiu na folia. Ensinou a batida do jongo nas palmas das mãos e convidou os brincantes de San Benito para dançar todos juntos. O palco se transformou numa espécie de terreiro. Gil gritou: “Essa é a verdadeira integração. O caminho da cultura é a maior facilidade”.

O segundo dia do encontro reforçou ainda mais a idéia de integração, só que agora na prática. Depois do almoço, antes do painel da tarde, se encontrava mestres dos diversos países juntos. Conversavam nem tanto por meio das palavras, mas por expressões, gesticulações, música, dança e brincadeira.
A importância da cultura popular faz parte da vida desses mestres. Aqui todos são iguais e todos podem participar, sejam eles brancos, azuis, amarelos, pardos ou negros.

Para Buarukugi, paraguaia do povo guarani, o encontro se constitui num espaço de reconhecimento da e na diversidade latino-americana, respeitandoa cada uma das culturas.
Mestre Vidal Colmenaros concluiu: “Temos que manter as raízes originais para saber quem somos de onde viemos e para onde queremos ir. E tenho certeza que vamos por um bom caminho – ele nos fará fortes”.

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Somos um e múltiplos

Repentistas, poetas, músicos, personagens, mestres. No II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações – se aprende que ser brincante é ser brincante em qualquer parte e que o resgate das culturas populares é uma busca comum

por Carolina Gutierrez

Chimbángueles, maracatus, tamonangui, pífanos ou flautas. A poesia popular é a mesma. Em português ou castelhano, o que muda são os sotaques – mais arrastado, caipira, arretado. Na Venezuela, o cavaquinho recebe o nome de “cuatro”. O forró se transforma num forró-maracas. A peculiaridade não difere – aproxima.

Foi esse intercâmbio de saberes e vivências das culturas populares da América Latina que se pôde ver no primeiro dia do II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações. Organizado pelo Ministério da Cultura do Brasil e Venezuela, o evento que começa hoje, 26, e vai até o dia 29 de novembro, acontece em Caracas, na Venezuela. Conta com a presença cultural de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Paraguai, Venezuela, Cuba, Honduras e Nicarágua. Serão quatro dias de debates, painéis teóricos, apresentações e festejos. A idéia é coletar o máximo de contribuições, depoimentos, propostas e anseios dos fazedores de cultura popular, e construir a partir disso uma carta dos mestres, como um manifesto. Um documento político que será entregue aos Ministros de Cultura dos países participantes em uma reunião no Rio de Janeiro, no próximo dia 5 de dezembro.

A pauta do encontro é o reencontro com diversidade e identidade cultural e as políticas públicas aplicadas a elas. Além disso, uma pergunta: Como promover a integração da América do Sul, por meio das culturas populares?

Os protagonistas desse evento não são os acadêmicos, administradores públicos ou pesquisadores. São os mestres, ou melhor, os representantes-líderes das diversas manifestações populares.

“Aqui, esperamos adquirir o máximo conhecimento sobre as demais culturas. É a primeira vez que se faz um evento com tal grandiosidade e possibilidade de troca. Isso é muito bom, porque poderemos vivenciar a cultura de outras regiões e países. Unir-nos em uma única família”, afirmou Heli Saúl Prieto, da manifestação de San Benito da região de Maracaibo, na Venezuela.

Já Mirtha Colina, delegada do Centro de Diversidad y Cultura do Estado de Zulia, na Venezuela, explicou que o grande objetivo é levar a discussão ao poder público. “Estamos reconhecendo, reconstruindo e reencontrando o que antes, nos anos 90, era totalmente esquecido pelo governo e pela população – a identidade. As culturas populares têm uma importância transcendental e histórica. Ela é a sabedoria do cotidiano. Aqui é uma oportunidade que mostra como nossa cultura pode emergir e tornar-se visível”.

A abertura do II Encontro contou com a participação de vários atores: o Secretário de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil, Américo Córdula; o presidente do Centro de Diversidad Cultural, Benito Irady; o vice-ministro do Poder Popular para a Cultura da República Bolivariana de Venezuela, Juan Carlos Lozada; E claro! Os atores principais – os mestres e mestras.

Nas palavras de boas vindas, todos enfatizaram a necessidade de resgatar as tradições profundas de cada povo. A herança cultural tem que ser transmitida. O conhecimento popular deve ser defendido. E o Estado, um imprescindível apoiador e fomentador.

Para Secretário de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil, Américo Córdula, o encontro passa a construir uma integração cultural da América do Sul, onde a cultura se afirme em todos os espaços. “Temos de promover a diversidade cultural e, inclusive, lingüística. A língua não pode mais nos afastar. Promover uma integração por meio da cultura”.
O vice-ministro do Poder Popular para a Cultura da Venezuela Juan Carlos Lozada completou: “Se há alguma possibilidade de desenvolvimento e mudança na sociedade, está nas culturas populares”.

Após as falas o palco do Teatro Teresa Carreña foi tomado pela Orquestra de Instrumentos Latinoamericanos (ODILA) da Venezuela. Os simpáticos e sorridentes músicos representaram, através da música, ritmos típicos dos países participantes. Daí nasceu um forró com maracás. Um tanto desajeitado, talvez por não ter a nordestinidade “en el sangre”. Um intercâmbio musical que deu certo. A prática da antropofagia cultural oswaldiana.

Logo depois, os tambores dos Chimbángueles de San Benito de Bobures começaram a soar. Incrivelmente brasileiro e africano, mas venezuelano. A manifestação se parece com uma mistura do maracatu rural com cavalo-marinho, do Brasil. Os batuques, algo que se assemelha ao jongo brasileiro.

Talvez, a integração ou o intercâmbio cultural entre as peculiares manifestações populares já ocorra de forma natural, porém não se conhecem, mesmo que próximas.

Já na parte da tarde, aconteceu o primeiro fórum teórico, onde representantes de cada país contaram suas experiências no que se refere às culturas populares. Os verbos-chaves apontados podem ser resumidos em: protagonizar, conservar, proteger, resgatar, conhecer, reconhecer, dialogar, defender, reencontrar, diversificar e resistir.

“A cultura implica a construção de uma sociedade. É um debate permanente sobre o país que se quer construir”, concluiu Antonia Portaneri, coordenadora da Universidad de Proyectos y Programas Especiales de La Secretaría de Cultura da Argentina.

O II Econtro II Encontro Sul-Americano das Culturas Populares – Revelando experiências, Políticas e Manifestações dá sequëncia aos I Seminário de Políticas Públicas para Culturas Populares (2005, Brasil) e ao I Encontro Sul-Americano das Culturas Populares (2006, Brasil).

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Ignacy Sachs debate a Amazônia

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Le Monde Diplomatique- Brasil, Envolverde, Fórum Amazônia Sustentável, Mercado Ético, PUC – SP convidam todos os leitores a participar da palestra de Ignacy Sachs: “Outra Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro”.

  • Dia 12 de novembro – às 16h, em Brasília, no Centro de Desenvolvimento Sustentável / UnB (Aud. Engenharia Mecânica – Campus Universitário Darcy Ribeiro).
  • Dia 17 de novembro – às 19h30, no TUCA / PUC-SP (Rua Monte Alegre, 1024. Perdizes / 11. 3670-8453)

Baixe aqui o texto preparatório para o debate: “Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro”

Confira as atualizações e mais informações no blog Outra Amazônia

*A palestra será gratuita, dessa forma, pedimos aos interessados, que compareçam ao local com antecedência.

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