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Blog da Redação & Oficina de Pautas

Letônia, a bola da vez

090226-letoniaFuga de capitais, desemprego em massa, empobrecimento e revolta. Abatido pela crise, o antigo “tigre do Báltico” segue o caminho da Islândia — e pode abrir uma espiral de instabilidade na Europa

A estranha assimetria que marca o sistema financeiro internacional floresceu com todas as cores, nos últimos meses, na Letônia. Atingido simultaneamente por paralisia nos mercados de crédito e redução brutal das receitas de exportações, o país mergulhou rapidamente em crise econômica e social. No quarto trimestre de 2008, o PIB despencou 10% — e a queda, estima-se, pode chegar a 15%, até o final do ano. A taxa de desemprego, de apenas 5,6% até outubro, disparou para 8,3% em janeiro e as demissões não cessam. Os produtores rurais (especialmente de leite) não têm a quem vender: os mercados nos países ricos da Europa secaram; as compras internas, também: o preço do litro caiu 45%, em poucas semanas.

Nos Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental — mas também em países como a China e o Brasil — tendências assim têm sido parcialmente compensadas pelo Estado, por meio de medidas de estímulo à economia e, em certos casos, proteção social. Na Letônia, não. Um acordo com o Fundo Monetário Internacional, no final de 2008, evitou que o país se tornasse inadimplente, mas impôs cortes severos dos gastos públicos. O salário dos servidores foi rabaixado em 25%. Os subsídios à agricultra, reduzidos em 40% a 50% — o que agravou o sofrimento dos produtores.

Em janeiro, a população se revoltou. Uma marcha de 10 mil pessoas terminou em confronto com a polícia. Pouco depois, os agricultores cercaram Riga, a capital, com tratores e gado. Em 20 de fevereiro, o primeiro-ministro, de centro-direita, caiu, logo depois de perder apoio de dois partidos da coalizão governante. Na manhã desta quarta-feira, 26/2, o presidente nomeou um substituto. Valdis Dombrovskis, o escolhido, parece ainda mais conservador: assumiu anunciando mais cortes orçamentários e culpando seu antecessor por “não haver cumprido todos os compromissos com o Fundo Monetário”. Nada indica que a situação vá se acalmar. Mas os fatos ajudam a compreender três fenômenos ligados à crise atual.

Nenhum fim previsível para a crise — Primeiro: a crise esmaga as certezas dos países que não se protegem contra ela. Até o final de 2006, com o PIB chegando a subir mais de 10% ao ano, a Letônia era o país de crescimento econômico mais rápido na Europa. Chamavam-na “tigre do Báltico”. Mas seu avanço apoiava-se em déficits e endividamento irresponsáveis. Desde que se separou da antiga União Soviética, em 1990, o país eliminou progressivamente as barreiras à entrada (e saída…) de capitais. A oferta de crédito externo parecia não ter fim. O sistema bancário foi radicalmente internacionalizado. Instituições estrangeiras — em especial austríacas e suecas — assumiram o controle de cerca de 90% dos financiamentos. Além disso, a produção de mercadorias voltou-se crescentemente para a União Europeia.

Estas formas de dependência tornaram a crise, agora, muito mais virulenta. Obrigados a cobrir prejuízos em seus países de origem, os bancos estrangeiros reduziram praticamente a zero a concessão e renovação de créditos na Letônia. Para piorar, boa parte das dívidas (especialmente as hipotecárias) está denominada em divisas estrangeiras, como o euro e a coroa sueca. Por enquanto, o  lat, moeda nacional, está atrelado à moeda europeia. Se sofrer desvalorização, como parece cada vez mais provável, tornará ainda mais difícil a situação dos devedores, comprometidos em moedas fortes. Já a abertura comercial sem controle, e a aposta na exportação de commodities agrícolas, tornaram a Letônia muito vulnerável às reduções no poder consumo de seus vizinhos ricos.

Segundo: não há nenhum fim previsível para a crise, porque as formas de contágio estão se multiplicando. A Letônia é apenas o caso mais agudo, na longa relação de países do Leste Europeu que foram irrigados com créditos fartos, sem que houvesse nenhum sinal de que estivessem se capacitando para saldá-los. A lista inclui Estônia, Lituânia, Hungria, Romênia e Bulgária. Em situação ligeiramente menos desconfortável estão Turquia, Bielorrúsia e Ucrânia. Numa conjuntura internacional já marcada por falências e calotes, uma crise cambial num destes países poderia ter conseqüências explosivas.

Como a Europa pode ser contagiada — Haveria dois mecanismos de propagação. O primeiro, entre os próprios países do Leste. Como todos estão comprometidos com um pequeno conjunto de bancos estrangeiros, uma eventual falência bancária, provocada pela quebra de qualquer dos elos da corrente, repercutiria de imediato nos demais. O segundo, potencialmente muito mais perigoso, envolve os próprios países centrais da União Europeia. A febre de empréstimos ao Leste foi vasta e lucrativa. Os bancos da Áustria, por exemplo, emprestaram para a região o equivalente a 70% do PIB austríaco. Uma crise generalizada no Leste quebraria o país. E então: qual seria a peça seguinte do dominó?

Terceiro: apesar dos riscos, não há nem resposta comum, nem articulação política suficiente, entre os governos. Num artigo publicado em 26/2 pelo jornal londrino The Guardian, o analista Timothy Ash frisa que, por tudo o que se viu até aqui, uma eventual derrocada na antiga Europa Oriental colocaria em risco a própria União Europeia, hoje constituída por 27 membros. Além das consequências financeiras e econômicas, há as políticas. Nos países do Leste, cresce o ressentimento contra a chamada “armadilha” representada pela adesão à UE.  Entre os governos do Oeste, contudo, não há sinais de solidariedade. Ela poderia vir, lembra Ash, na forma de “qualquer construção prática capaz de oferecer abrigo durante a tempestade”. Por exemplo, uma sinalização do Banco Central Europeu, sinalizando que não permitirá o colapso dos sistemas de crédito orientais.

O motor da Europa — Alemanha e França, principalmente — permanece paralisado. No Leste, persiste a crise econômica e social, e não parece haver, no espectro político, saída à vista (vide a mudança para pior no governo da Letônia). Assim como na Islândia (veja nosso post a respeito), onde a crise começou a detonar a mudança, a mobilização social parece ser o único caminho…

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"O pior está por vir", diz Stiglitz

Mas ele vê luz no fim do túnel: “o momento de um novo Bretton Woods”

Coordenador de uma comissão formada pela Assembléia-Geral da ONU para debater alternativas para a crise, o economista Joseph Stiglitz apresentou terça-feira (24/2), ao grupo que dirige, um balanço ambivalente sobre os esforços adotados para superar as dificuldades atuais. Ele voltou suas críticas contra o apoio quase sem contrapartidas oferecido pelos Estados ao sistema financeiro, e contra a postura pouco solidária dos países mais ricos. Afirmou que a falta de ações coordenadas internacionalmente poderá ampliar as desigualdades no planeta e preservar estilos de vida e consumo destrutivos. Nações que estão no topo da hierarquia financeira, lembrou, têm meios para reagir; outras [veja acima o caso da Letônia], sucumbirão.

Stiglitz, porém, considera que surgiram, do ponto de vista político, razões para otimismo. Ele crê que a crise abre a oportunidade de corrigir as injustiças e desequilíbrios que se acumularam nos últimos trinta anos. “Para os economistas, é o momento mais estimulante”, disse: “podemos realizar o que as instituições criadas há 60 anos não alcançaram (…) Estamos esperando a oportunidade de propor um novo Bretton Woods e evitar que crises como esta voltem a ocorrer”.

Quase não noticiada pela mídia, a comissão da ONU foi formada em outubro do ano passado, por iniciativa do presidente da Assembléia-Geral, Miguel D’Escoto. É também chamada de G192, pelos que desejam frisar seu caráter mais amplo que o do G8 e G20. É um grupo heterogêneo. Constituído principalmente por ex-ministros da Economia e ex-presidentes de Bancos Centrais (do Brasil, participa Rubens Ricupero), inclui também personalidades como François Houtart, peça-chave da Teologia da Libertação e participante ativo nos Fóruns Sociais Mundiais.

Os trabalhos da Comissão pode ser seguidos em página especial (em inglês ou espanhol), no site das Nações Unidas. Seria ótimo encontrar, entre os participantes do blog, quem se disponha a acompanhá-los e relatá-los.

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O plano de Obama para reformar a Saúde

Ainda faltam detalhes, mas ele parece ser distributivista, afirma um blog

Crescem, nos Estados Unidos, as especulações sobre a proposta de Orçamento que Barack Obama enviará ao Congresso. Um dos aspectos mais aguardados é a proposta para a Saúde: no discurso de ontem, ao Congresso, o presidente afirmou que uma reforma deve começar ainda este ano.

As primeiras informações, extra-oficiais, disponíveis deixaram o editor (de Prospect) e blogueiro Ezra Klein moderadamente otimista. Num post de horas atrás, ele afirma que, embora faça concessões ao princípio de “direito de escolha” (o que valoriza também a medicina privada), a proposta de Obama inclui diversos princípios distributivistas e desmercantilizadores. Promete ampliar os investimentos na saúde pública, eliminando as isenções de impostos que Bush ofereceu aos mais ricos. Fala em redução das prestações aos planos privados. Defende a adoção de medicamentos genéricos.

Constantemente atualizado (inclusive com entrevistas e vídeos), o blog de Ezra pode ser visto aqui. Seu tema principal é a defesa e ampliação dos serviços públicos. Em dezembro de 2007, ele publicou um texto mais amplo, sobre a necessidade de reformar a Saúde norte-americana. Como a privatização do setor tornou-se, nas últimas décadas, um fenômeno internacional, qualquer movimento em sentido contrário, nos EUA, pode produzir boa tendência. Resenha do artigo, ou comentários sobre o plano de Obama, são muito bem-vindos.

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Mais crise, em toda parte

Japão, Alemanha e Reino Unido divulgam novos indicadores alarmantes

> No Japão, dados sobre produção industrial e preços ao consumidor (em deflação), a ser divulgados na sexta (27/2), revelarão “a maior recessão em um século”, diz o site MarketWatch. Ontem, o ministro das Finanças admitiu que as exportações despencaram 45,7% em janeiro, o sétimo mês seguido de quedas.

> Mais 40 mil empregos foram eliminados na Alemanha, em fevereiro, segundo a Agência Federal de Emprego. O índice de desocupação atingiu 7,9% em fevereiro. A Alemanha conseguiu segurar a onda de demissões até novembro, mas ela cresce rapidamente desde então.

> A retração verificada na economia do Reino Unido, no último trimestre de 2008, foi a maior desde 1980, informou a agência de estatísticas britânica.

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Automóveis: a GM perde; a Toyota, também

A situação das empresas norte-americanas é desesperadora, mas o setor vai mal em quase todo o mundo

A sangria da General Motors continua. A empresa anunciou, esta manhã, que perdeu mais 9,6 bilhões de dólares no último trimestre de 2008, acumulando uum prejuízo total próximo a US$ 31 bi, no ano. Talvez para reforçar a busca por recursos públicos, a própria direção da GM admitiu que, diante dos números, os auditores poderão questionar a viabilidade da companhia. Nos dois últimos anos, ela demitiu 92 mil trabalhadores; em 2008, quando completou um século de existência, perdeu, pela primeira vez em sete décadas, a liderança mundial na produção de automóveis.

A maior produtora é, agora, a japonesa Toyota. Também ontem, porém, a agência Kyodo antecipou que a nova líder anunciará oficialmente, nesta sexta-feira (27/2), que reduzirá sua produção em 10%, ao longo do ano fiscal que começa em 1º de abril próximo. Entre as medidas a ser anunciadas está um novo período de férias coletivas gerais, no Japão (para desovar parte dos enormes estoques).

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Não deixe de l(v)er

> A última Coluna Econômica de Luís Nassif, sobre as conquistas do Banco de Palmas, de Fortaleza. Criado há alguns anos pela Associação de Moradores do Conjunto Palmeira (na periferia da capital), ele está incentivando uma série de empreendimentos de Economia Solidária. Entre elas, uma moeda social própria, uma Incubadora Feminina, um sistema alternativo de microcrédito , cartões de crédito, feiras e lojas solidárias. O banco integra a RedeBrasileira de Bancos Solidários, com 32 instituições.

> A matéria (em inglês) na GriTTv , sobre o início da resistência contra os despesos de moradores inadimplentes nos EUA. A editora, Laura Flanders, ressalta que o ritmo de desocupações forçadas de casas uma a cada 17 minutos, no país. A GriTTv é uma emissora web que publica várias matérias ao dia. Seus temas principais são a denúncia da guerra do Iraque, a defesa dos direitos sociais e a busca de um novo papel para os EUA no mundo.

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EUA: os grandes bancos à beira do abismo

Estatização pode vir agora ou em seis meses, mas parece inevitável. Gravidade da crise promoveu reviravolta brusca no pensamento da opinião pública

(veja, abaixo, link postado por Vanderlei)

Altos executivos dos Citigroup — que até o final de 2006 revezava-se com o Bank of America e o HSBC na condição de maior banco privado do planeta — passaram a terça-feira (24/2) reunidos com autoridades do governo norte-americano, segundo o New York Times. A bateria de encontros pode resultar, nas próximas horas, no anúncio de estatização, ao menos temporária, daquele que foi, no século 20, um dos símbolos do capitalismo. O declínio acelerado do Citi é um sinal da profundidade da crise — mas também ajuda a compreender a gravidade dos fatos que levaram a estatização a passar, em poucos meses, de anátema a medida quase consensual.

A situação do Citigroup veio à tona a partir de sexta-feira (20/2), quando as ações do grupo sofreram, na bolsa de Nova York, a sétima baixa consecutiva. O valor de mercado do banco despencou para meros 10% do que era no início de 2008. Também surgiram sinais de que o grupo poderia necessitar, a curto prazo, de um novo aporte de recursos do Estado (agora, de 45 bilhões de dólares). Em situação semelhante estariam o Bank of America, também no grupo das três maiores instituições financerias dos EUA. Embora menos urgente, a situação do último membro da tríade — o JPMorgan-Chase — também seria delicada.

Os bancos estão próximos da falência porque a ajuda que já receberam do Estado norte-americano é insuficiente para compensar as enormes perdas que estão sofrendo com a onda de inadimplências e a paralisia dos mercados de crédito. Num artigo publicado publicado sexta-feira, o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, apresentou os dados cruamente: a) “Os bancos estão à beira do abismo. Já teriam quebrado, se os investidores não acreditassem que o governo agirá, em caso de necessidade”; b) O governo precisa resgatá-los. A quebra do Lehman Brothers, em setembro do ano passado, quase destruiu o sistema financeiro internacional. No caso do Citi ou BoA, muito maiores, as conseqüências seriam incalculáveis; c) Porém, é possível que Citi e BoA requeiram, nos próximos anos, centenas de bilhões de dólares — muito mais do que seu valor atual. O Estado norte-americano não tem condições nem financeiras, nem políticas, de fazer o resgate sem assumir a propriedade das instituições — para ao menos reduzir o prejuízo dos contribuintes. Cálculos do New York Times sugerem que as despesas já comprometidas pelo Estado norte-americano no socorro aos mercados financeiros podem chegar a 9 trilhões de dólares (veja nota abaixo).

Talvez por isso, a onda de apoio à estatização tem crescido velozmente. Na semana passada, aderiram a ela o senador republicano Lindsey Graham, o ex-candidato à presidência John McCain e até mesmo Alan Greenspan, ex-presidente do banco central dos EUA (o FED), conhecido por sua defesa intransigente dos “livres” mercados.

Se a estatização não vier nos próximos dias, será por duas razões essenciais. A ideologia: parte do establishment norte-americano continua resistindo à medida, apesar de todas as evidências concretas a recomendarem. Ou o timing: paradoxalmente, analistas ainda mais pessimistas que Krugman sugerem que o Estado mantenha as instituições ardendo em fogo lento, para assumir seu controle de forma mais eficaz mais tarde. É o caso de Nouriel Roubini, talvez o mais arguto analista da crise. Segundo ele, o melhor momento para agir será em cerca de seis meses. Então, “mesmo bancos que parecem solventes agora vão se revelar insolventes. Será o caso de quase todos as grandes instituições. Nacionalizá-las ao mesmo tempo vai provocar menos danos do que assumir o controle sobre um ou dois agora, criando pânico e confusão”.

O BC brasileiro quer salvar os bancos dos EUA?

No Brasil, as medidas adotadas pelo Banco Central a pretexto de enfrentar a crise continuam blindadas de um debate mais sério. Os jornalões são dóceis a Henrique Meirelles; os blogs e sites críticos não acompanham em profundidade as políticas do BC. O texto enviado por Vanderlei ao blog é uma exceção. É assinado por Carlos Lopes e foi publicado originalmente em Hora do Povo. Sugere que o BC está desperdiçando US$ 36 bilhões das reservas brasileiras para pagar as dívidas das grandes empresas brasileiras atingidas pelo congelamento dos mercados de crédito. Lopes argumenta que seria entregar um rio de dinheiro para as instituições internacionais que provocaram a crise e estão, na prática, falidas. É um debate mais que necessário. O texto pode ser lido a seguir Continue lendo »

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Reviravolta política na Islândia

Após sério colapso financeiro, população toma as rédeas da política e demonstra que organização social é a melhor alternativa à crise do neoliberalismo

Por Marília Arantes

Há não mais que dez anos um governo conservador, composto por banqueiros em maioria, decidiu transformar radicalmente a economia da Islândia. Da tradicional ilha pesqueira, aumentaram suas expectativas de crescimento formando ali algo como um enorme fundo de investimentos. Em pouco tempo, internacionalizaram bancos e os tornaram independentes da economia real.

Após anos de boom econômico e muito capital volátil, o ano de 2008 representou uma ameaça para a Islândia e seu sistema financeiro. Não somente por uma crise que já se anunciava, mas como muitos analisam, pela falta de experiência e controle dos mecanismos bancários.

Então, assim que caíram os muros de Wall Street, em outubro de 2008 a Islândia foi o primeiro país a quebrar com a crise. Em desespero, o governo neoliberal tomou controle dos três maiores bancos do país para tentar estabilizar a economia. Sem maiores resultados, semanas depois entraram para a história como o primeiro país do Norte a precisar da ajuda do FMI. Receberam 2,1 bilhões de dólares do fundo que, por sua vez, passou a a intervir na economia do país.

A população reagiu e não demorou muito para que manifestações tomassem as ruas de Reikjavick, a capital. A presença do Partido Conservador na diretoria do Banco Central foi motivo de revolta. Eles haviam deixado a Islândia – que não devia nada a ninguém – com uma dívida que já ultrapassa seu PIB anual.

Como deixar nas mãos de irresponsáveis um resgate que será pago por sabe-se lá quantas gerações de islandeses? Por fim, a mobilização social conseguiu depor o governo. No dia 26 de janeiro, o então primeiro-ministro Geir Haarde entregou seu cargo ao governo provisório de Johanna Sigurdardottir, uma coligação da esquerda com o Partido Verde, a esperança em tons de verde e vermelho.

Pela primeira vez uma mulher homossexual governa uma nação, até pelo menos as eleições que acontecerão em maio desse ano. Embora seus planos de resgate não tenham sido anunciados, comenta-se que a solução de emergência considerada incluiria o país de vez na União Europeia. Contudo, a ideia não agrada a maioria, pois perderiam a exclusividade de pesca em extensões marítimas que conseguiram após anos de disputa com o Reino Unido.

Por mais que não se saiba que fim levará a soberania da Islândia, importante é que – independentemente de soluções oficiais – uma rede de solidariedade está se fortalecendo para superar a crise fulminante. E o mais interessante: as alternativas fogem às tradicionais receitas do socialismo do século 20.

Até agora são iniciativas horizontais e participações sociais espontâneas que estão aliviando as dificuldades imediatas: produção doméstica, trocas, compartilhamento, comunicação, improviso. A resposta de atitude política dos islandeses é um ótimo exemplo ao mundo – principalmente aos próximos que vierem a falir por aí.

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A primeira encruzilha de Obama

O pacote de estímulo à economia é insuficiente e o novo socorro ao sistema financeiro, obscuro. Analistas norte-americanos sugerem que o esforço do presidente para agradar gregos e troianos pode ser má idéia

Nos EUA, epicentro da grande crise econômica, ontem (18/2) foi mais um de más notícias. Provocadas há semanas pelo presidente Obama, que cobrou contrapartidas para o apoio financeiro que solicitam, as indústrias automobilísticas reagiram com mais do mesmo. Querem 39 bilhões de dólares para não falir. Mas planejam usar o dinheiro público para uma “reestruturação” que significa… demitir: 47 mil trabalhadores, em todo o mundo, só no caso da General Motors. A Casa Branca hesita (veja nota abaixo). Os mercados tremem: os novos sinais de incerteza derrubaram as bolsas de valores nos EUA, num movimento que se espalhou pelo mundo. A assinatura, pelo presidente, de medidas de estímulo à economia estimadas em cerca de 800 bilhões de dólares acabou ofuscada.

Textos publicados nos últimos dias, por dois importantes analistas norte-americanos, argumentam que a postura conciliadora adotada por Obama na campanha eleitoral, e nas primeiras semanas de governo, podem levá-lo a perder tempo e apoio preciosos.  Continue lendo »

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Momo nos acuda: repressão a um Ponto de Cultura em Olinda

Parecia operação de guerra. Instrumentos foram arrancados com violência das mãos das crianças. “A nossa resistência frente à intolerância da polícia, da igreja, da cultura de palcos incomoda”, diz Beth de Oxum

Por Carol Gutierrez

Já nas primeiras batucadas do carnaval, os Pontos de Cultura pedem licença a Momo para desviar a atenção das purpurinas, confetes e serpentinas e atentar para um caso que diz respeito a todos os reis, deuses, orixás e mestres da cultura.

Pela segunda vez, em três meses, o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, localizado em Olinda, sofreu ataque da Polícia Militar (PM) de Pernambuco. No dia 13/02, a PM chegou chegando e invadiu a Sambada realizada pelo grupo, todo o primeiro sábado do mês. Segundo Beth de Oxum, coordenadora do Ponto de Cultura Coco de Umbigada e do Ponto de Cultura Escola de Ensinamento de Mãe Preta, mais parecia uma operação de guerra. Ela contou que havia mais de 40 policiais, dentre civis e militares e em torno de 10 viaturas.

Os oficiais chegaram às 21h30 alegando que a Sambada estaria infringindo a lei do sono (correspondente à lei do Psiu, em São Paulo). Beth relatou que os instrumentos, inclusive uma zabumba centenária, foram arrancados violentamente das mãos das crianças (Coco de Umbigadinha) e apreendidos. Logo após, Beth foi intimada a ir à delegacia. Não foi! Disse que só iria se toda a comunidade fosse com ela.

“Tudo isso foi a mando do major Marcos Pereira e de seu irmão capitão Daniel Pereira, moradores da nossa comunidade do Guadalupe. A mãe é evangélica e eles não aceitam, não toleram e nem respeitam o nosso trabalho e a religiosidade e matriz afro”, disse.

Beth contou, ainda, que tentou argumentar que o Ponto de Cultura possuía autorização para a realização da Sambada e que tinha o apoio da Prefeitura de Olinda, do Ministério da Cultura e do governo do Estado (Fundarpe). A resposta veio rápida como um tiro de revólver. “O Capitão Daniel Pereira disse que era mentira que tínhamos esse apoio, que forjamos um banner, pois o Ministério da Cultura não apoiaria projeto “de um povo com estes cabelos.” Beth,o marido Quinho e a maioria das pessoas da comunidade e integrantes do Ponto são Rastas. Mal imagina capitão Daniel que o ex-ministro da cultura, Gilberto Gil, também tinha os mesmos cabelos.

Para encurtar a história, foi necessário um telefonema à Secretária de Cultura de Olinda Márcia Souto, que ligou para o prefeito Renildo Calheiros, que comunicou ao Secretário de Controle Urbano Sr. João Luiz. Um telefone sem fio que acabou com a presença do Secretário João Luiz na delegacia. Curiosamente os instrumentos e aparelhos de som foram devolvidos ao Ponto.

Beth relatou que a repressão aumentou logo após a mudança do Ponto de Cultura para uma rua mais central. Antes o grupo reunia-se e realizava a Sambada num Beco. Com o crescimento do Ponto, alugaram uma casa e a fizeram de sede. A casa localiza-se na rua dos oficiais major Marcos Pereira e de seu irmão capitão Daniel Pereira – Rua Guadalupe. Desde então as pressões e ataques ao Ponto intensificaram-se.

O coronelismo parece continuar e dessa vez atinge a cultura. “A nossa ação gera empoderamento e pertencimento. Lutar por cidadania, transformação social, atender quem nunca foi atendido – como os quilombolas, indígenas e, no nosso caso, os terreiros – incomoda. A nossa resistência frente a intolerância da polícia, da igreja, da cultura de palcos incomoda. Enfim, o resultado do nosso protagonismo incomoda o outro segmento da sociedade que sempre nos estereotipou!”

Mas e agora como é que fica Zé? Marta Figueiredo , diretora de gestão do Funcultura da Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco) afirmou que a Fundação acionou o gabinete do governador para apurar os fatos e tomar providências. “Estamos esperando a resposta efetiva e orientação do gabinete do governador. Enquanto isso distribuímos o email com o relato de Beth para a rede de Pontos de Cultura”.

Já Tarciana Portella, chefe representante da regional Nordeste do MinC, disse que uma reunião para discutir o ocorrido e as medidas a serem tomadas está em processo de agendamento (prevista para o pós-carnaval). Segundo Tarciana, estarão presentes o Ponto de Cultura Coco de Umbigada, o secretário executivo de Justiça e Direitos Humanos Rodrigo Pellegrino e o Comandante Geral da Polícia Militar de Pernambuco José Lopes. O comandante Lopes ainda não confirmou .

“O Ponto, o Coco de Umbigada e a Sambada cresceram muito. O que ocorre é um conflito de vizinhos daquela comunidade, onde um tem poder exacerbado, inclusive com o poder de fogo. Houve um abuso de poder, onde entrou na roda tudo o que é preconceito – racial, religioso, de classe – o incômodo da situação. Evento cresceu demais e vizinhos responderam de forma abusiva”, analisou Tarciana.

Para ela, o ideal seria uma posição negociada entre o poder público, para garantir os direitos da Sambada (inclusive de maior infraestrutura e espaço) e também o conforto da vizinhança (devido ao barulho e à quantidade de gente presente na festa).

Mas como fazer para que casos como esse, repetidos no sul do país, em ataques aos quilombolas, e no Rio de Janeiro, em ataque ao Jongo da Serrinha não se tornem um grão de confete em meio ao carnaval da polícia militar?

Saiba mais:

Sobre a violência no coco de Umbigada em Dezembro de 2008, clique aqui.

Sobre a violência no coco de Umbigada em Janeiro no ultimo dia sábado, clique aqui.

Blog do Coco de Umbigada, clique aqui.

Ponte de cultura Coco de Umbigada no Mapas da Rede, clique aqui.

Tags: abuso, autoridade, coco, cultura, de, manifestações, pontos, populares, umbigada

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