Outras Palavras

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Blog da Redação & Oficina de Pautas

Tecnologias verdes: a nova fronteira do Conhecimento Livre

Evitar a catástrofe climática é mais importante que preservar os lucros das transnacionais, sustenta o governo brasileiro, na ONU.. Mas há quem lute pelo contrário…

A batalha pela garantia da livre circulação dos conhecimentos está prestes a entrar num novo terreno. Artigo publicado ontem (1/6) pelo cientista político norte-americano Mark Weisbrot, no TheGuardian (leia em nosso clipe, ou em tradução automática), revela que o Brasil, junto com Índia e China, pedirá à ONU que autorize o licenciamento, sem pagamento de royalties, das tecnologias verdes. A medida sofre oposição de um cartel de transnacionais liderado por General Electric, Microsoft e Sunrise Solar. Extremamente reveladora, a disputa pode provocar, também, um saudável conflito entre as Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio (OMC).

O pano de fundo da polêmica, conta Weisbrot, são as negociações em torno do acordo internacional que sucederá o Protocolo de Kioto. Para que seja bem-sucedido, o novo esforço de reduzição das emissões de gases do efeito-estufa deve cobrar medidas anti-poluidoras também dos países do Sul do planeta, poupados até agora. Parece justificado. A China superou os Estados Unidos e se tornou, no ano passado, o país que mais contribui para o aquecimento global. O Brasil, embora bem atrás, é responsável pela vergonhosa devastação da floresta amazônica, quase sempre na forma de queimadas.

Em conjunto com a Índia, os governos dos dois países estão reivindicando uma contrapartida, sempre segundo Weisbrot. Aceitam abrir mão da imunidade que reivindicavam até há pouco. Mas querem que a ONU (onde se dão as negociações sobre redução das emissões) os autorize a utilizar, sem pagar royalties, tecnologias que tornam possível emitir menos. Servem-se de um precedente: a decisão da OMC que permitiu, em 2001, a produção de medicamentos genéricos em caso de emergência sanitária.

A reação vem a galope. Ontem mesmo, revelou o artigo, um cartel de grandes empresas lançaria, em defesa da propriedade intelecutal sobre o verde, uma coalizão denominada Aliança pela Inovação, Desenvolvimento e Emprego. A sigla do grupo é Idea (de Innovation, Development and Emplyment Alliance), o que disparou a ironia de Weisbrot: “É preciso admirar a pegada orwelliana dos consultores de marketing dessa gente”. O objetivo central da “Idea” é evitar que a ONU reivindique autoridade sobre o tema. As grandes corporações sempre preferiram a OMC, muito mais sensível à ideologia do “livre” comércio que aos direitos humanos.

Numa época em que a produção de conhecimento deslocou-se para o centro da economia, a atitude de Brasil, China e Índia é bem-vinda e merece apoio. Inclusive porque contribui para isolar, no plano interno, os que querem restringir a circulação de outras formas de saber, tão importantes quanto as tecnologias verdes…

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O clip de hoje

Um dos projetos de Outras Palavras: criar o clip coletivo, agregador comum de notícias garimpadas e destacadas pelos participantes do blog

Na edição de hoje, entre outros, textos sobre A Agonia da GM, O dólar e o yuan, Ambiente & Bens Comuns, os gerenciadores de projetos na internet, a (nova) queda na circulação dos jornais, a rodada de negociações para redução de emissões de CO2 e a idéia de transformar as tecnologias verdes em bens comuns. Aqui (em português e inglês)

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Para acompanhar a Conferência Nacional de Comunicação

Uma lista de sites e um desafio: acompanhar coletivamente as informações e análises preparatórias ao evento

Convocada para 1º a 3 dezembro (em Brasília), pela presidência da República, a I Conferência Nacional de Comunicação deveria ser acompanhada com atenção pela sociedade civil organizada e por quem está povoando a blogosfera. Foi marcada após intensa resistência de um setor acostumado a privilégios. Só saiu depois que mais de 50 conferências nacionais, sobre inúmeros temas, foram realizadas, nos últimos sete anos. Mas terminará ocorrendo num momento favorável: o oligopólio das mídias está enfraquecido por queda das tiragens, audiências e credibilidade; e a comunicação compartilhada ganha atenção e respeito entre parcelas cada vez mais largas população.

Como entrar neste debate? O levantamento abaixo, preparardo por Carolina Gutierrez, da equipe de Outras Palavras,traz uma primeira relação de fontes que estão produzindo material sobre o tema. A relação inclui sites que se dedicam ao Direito à Comunicação, mas também (novidade animadora) Redes Sociais com dezenas de participantes, que se articulam para se manter informados e qualificar sua participação nos trabalhos – na Bahia, Paraíba, Rio Grande do Sul e Baixada Santista (SP).

O blog sugere: que tal criar também aqui, e em sintonia com estas iniciativas, um acompanhamento coletivo da Conferência e seus preparativos? Para começar a leitura, quatro links que ajudam a situar a importância da Conferência e seu cenário atual; em seguida, o levantamento de Carolina Gutierrez:

Confronto Inédito, olho no olho
(Carlos Castilho, Observatório da Imprensa)

Os “nomes” da Conferência da Comunicação
(Altamiro Borges, Vermelho)

Comissão da Conferência faz primeira reunião nesta segunda
(Lucia Berbert, Tele.Sintese / Observatório do Direito à Comunicação)

A Conferência Nacional de Comunicação: desafios e limites
(Eliana Tavares, Alai)

Fontes

Tipo

URL

Atualização (sobre a Conferência)

Conteúdo (sobre a Conferência)

Observatório do Direito à Comunicação

site

http://www.direitoacomunicacao.org.br/novo

diária

notícias gerais / notícias CNC,

Observatório da Imprensa

site

http://www.observatoriodaimprensa.com.br

diária

notícias gerais sobre comunicação / notícias CNC

Bahia na Conferência Nacional de Comunicação

rede social / ning

http://cpc-ba.ning.com/

diária

notícias gerais / notícias CNC

Comissão RS Mobilização 1ª Conferência Nacional de Comunicação

blog

http://rsproconferencia.blogspot.com/

quase diária

notícias CNC, sobretudo, preparativos locais

Baixada Santista Pró-Conferência

rede social / ning

http://conferenciacombs.ning.com/

diária

notícias gerais sobre comunicação / notícias CNC

Movimento Pró-Conferência

site

http://www.proconferencia.com.br/

eventual

notícias, documentos sobre CNC

Vermelho Portal

site

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=56970

diária

notícias gerais / notícias CNC

Conferência de Comunicação da Paraíba

blog

http://proconferenciacomunicapb.wordpress.com/

quase diária

notícias gerais sobre comunicação, sobretudo, local/ notícias CNC

Adital

site

http://www.adital.com.br/SITE/noticia.asp?lang=PT&cod=38710

última atualização: 15/05/2009

notícias gerais / notícias CNC

Fórum Nacional pela Democratização da comunicação

site

http://www.fndc.org.br/

quase diária

notícias gerais sobre comunicação / documentos da CNC

Centro de Mídia Independente

site

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/05/446227.shtml

última atualização: 05/05/2009

notícias gerais / notícias CNC

Sérgio Amadeu

blog

http://samadeu.blogspot.com/2009/02/conferencia-nacional-das-comunicacoes.html

diária

notícias gerais / notícias CNC

Associação Brasileira de Televisão Universitária

site

http://www.abtu.org.br/noticias/imprensa/341

diária

notícias gerais sobre comunicação / notícias CNC

Interlegis

site / comunidade

http://www.interlegis.gov.br/Members/brendaortiz/plenaria-da-comissao-pro-conferencia-nacional-de-comunicacao

quase diária

legislativo e CNC

Ministério das Comunicações

site

http://www.idbrasil.gov.br/noticias/news_item.2009-04-17.8774723354

diária

notícias gerais sobre comunicação / notícias CNC

Soy Loco Por Ti

blog / Ponto de Cultura

http://blog.soylocoporti.org.br/tag/democratizacao-da-comunicacao/

última atualização: 03/05/2009

notícias gerais / notícias CNC

Rede Mocoronga de Comunicação Popular

site / Ponto de midia livre

http://redemocoronga.org.br/category/comunicacao-comunitaria/

última atualização: 19/05/2009

notícias gerais sobre comunicação / notícias CNC

América Latina em Movimento

site

http://alainet.org/active/30487&lang=pt

quase diária

notícias gerais / notícias CNC

Portal Nassif

rede social / ning

http://blogln.ning.com/profile/EmilioJoseLemosdeLima

diária

notícias sobretudo, no blog de Emilio José

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Pedro Dória escreve (e fala) sobre ciberjornalismo

Em breve, o fim do jornal como produto “íntegro”. E que sobra aos editores, quando isso acontecer?

Pioneiro na internet brasileira, prossivelmente o primeiro blogueiro profissional do país, o jornalista Pedro Dória está passando uma temporada na Califórnia, graças a uma bolsa da Universidade de Stanford. Suas postagens sobre ciberjornalismo são uma fonte permanente de informação e idéias. Entre as mais recentes estão vídeos e textos criados a partir de palestras com o jornalista Richard Gingras, editor da revista Salon.

Nelas, Dória argumenta, com base em Gingras, que a internet 2.0 está dissolvendo a noção de que os jornais (ou revistas) são um produto acabado, com começo, meio e fim. Capa, manchete, cadernos e seções, como parte de um conjunto único, estão sumindo simplesmente porque os própris leitores fazem suas escolhas, recolhendo de cada produto jornalístico (comercial ou não) o que mais lhes interessa. É mais um sinal de que o poder dos editores está se relativizando, e deveria se concentrar na orientação de matérias — muito mais que na concepção de jornais “inteiros”.

Para acessar os posts de Dória, clique aqui

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As boas novidades no ciberativismo

Change.org: uma das novas ferramentas

Change.org: uma das novas ferramentas

Com o declínio da crença nos mercados, florescem os sites e redes dedicados ao engajamento em mudanças sociais e ambientais. Não haveria, num país de múltiplas iniciativas como o Brasil, espaço para algo semelhante?

O aprofundamento da crise dos jornais (começando pelos países ricos) tem levado muitos analistas a temer pelo futuro da democracia. Nesta onda estão, além dos conservadores e dos partidários da mercantilização da mídia, alguns pensadores à esquerda. Eles temem que, como a marca principal da internet é a fragmentação, não haja substitutos para o papel de espaço público que a mídia convencional desempenhou, entre os séculos 18 e 20. Surgiu recentemente, porém, mais um desmetido a este receio. Estão se multiplicando, fortalecendo e popularizando os sites colaborativos dedicados a alertar para problemas sociais ou ambientais — e promover mobilização em torno deles.

O pioneiro nesta estrada é provavelmente o Global Voices (português, inglês). Criado em 2005, por iniciativa de um jornalista e um especialista em internet que atuavam no Centro Berkman, da Universidade de Harvard, já tem versões em dezesseis idiomas. A idéia central é precisamente construir comunicação que se alimente do caos da internet, mas vá além dele. “Com milhões de pessoas blogando ao redor do planeta, como você evita ser oprimido pelo excesso de informação?”, indaga-se, na página de apresentação do projeto. A contribuição do Global Voices foi articular, a partir da blogosfera, uma rede de autores, tradutores e editores que visita milhares de blogs e produz diariamente, em cada idioma, uma seleção editada de posts. Além das manchetes do dia, é possível lançar, em cada idioma, pesquisas por país, região e tema. A abrangência temática é muito diversa, mas há forte concentração em assuntos como defesa liberdade de expressão, acesso à internet e combate à pobreza.

Mais recente (2008), contraditório e intrigante é o Take Part. O site é clean, as imagens da home provocam impacto, há a possibilidade atraente de fazer parte da rede e enviar suas próprias histórias. O leque de temas é mais vasto. “Industrialização da cadeia alimentar” e “conflitos no Oriente Médio”, por exemplo, estão visíveis, logo na entrada. Um menu saliente, no espaço mais atraente da home, sugere “postar”, ou envolver-se em “temas”, “ações” e “grupos”. Um olhar mais profundo sugere, porém, que talvez Take Part seja editado demais na forma (destacar “boas” fotos e textos é ótimo, mas é difícil chegar ao que foi postado por “gente comum”), e de menos no conteúdo (um emblema da ambiguidade é a foto que abre o tema “conflitos no Oriente Médio…).

Com enfoques distintos, mas sempre com algum apelo à mobilização social, dezenas de iniciativas estão florescendo. Não seria má idéia escrever, colaborativamente, breves descrições sobre cada uma, para explorar pontos positivos e vulnerabilidades — quem sabe com vistas à construção de algo em português. Uma novidade adicional é o surgimento, recente, de espaços que agregam as informações propostas nos diversos sites e redes de ciberativismo. Uma busca em Social Actions, por exemplo, permite acessar informações sobre campanhas postadas em mais de 50 sites.

Social Actions articula, além disso, uma comunidade de desenvolvedores que já criou cerca de vinte aplicativos para internet. O objetivo destas ferramentas é transformar a busca de campanhas em algo que pode ser feito enquanto se lê uma notícia ou um post. Um plugin para Firefox permite que o navegador acesse, a qualquer tempo, uma base de dados atualizada com informações provenientes dos mais de 50 sites. Um complemento para o WordPress cria, ao pé de cada post em blog construído nessa plataforma, links para as campanhas relacionadas ao tema do texto. Está em desenvolvimento (mas já operante) um aditivo ao Ubiquity, uma ferramenta revolucionária do Firefox. Com ele, você acessa, a partir de qualquer palavra, publiqucada em qualquer site, as ações relacionadas. Basta iluminar os termos desejados (“financial crisis”, digamos) teclar <control+barra de espaços> e em seguida digitar, na janela que se abre, “social-actions”.

Para quem acredita (como o autor deste post), na necessidade de ações que questionem a fundo as relações capitalistas, um exame das campanhas postadas em todas estas fontes pode ser, à primeira vista, estranho Boa parte das iniciativas diz respeito a problemas muito particulares ou locais. Um pesquisador busca recursos para continuar a observação de uma comunidade de gorilas, num trecho de floresta em que estão criticamente ameaçados, no norte do Congo. Uma ONG educacional apela, no nordeste da Tailândia, por voluntários que dêem aulas de artes e redação criativa para crianças.

Esta mesma presença do particularismo caracteriza, porém, a grande maioria das oficinas nos Fóruns Sociais Mundiais. É, provavelmente, um aprendizado necessário. Num momento em que setores vastos da opinião pública estão deixando o longo sono da crença nas “soluções de mercado”, e (re)descobrem a aventura de enxergar criticamente as relações sociais, é natural que seu olhar se fixe nos problemas e injustiças mais próximas. Para abrir novos horizontes, são essenciais a experiência e o diálogo. Além de ajudarem a narrar (e conhecer) o que a mídia de mercado não conta, os sites e redes de ciberativismo são um poderosíssimo acelerador destes processo.

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China: há vida por trás do Grande Firewall

Uma reportagem surpreendente sobre a censura à internet revela: ela é ao mesmo tempo onipresente e vulnerável – e o consenso é mais empregado que a repressão, no controle da sociedade

(Por Sofia Dowbor)

Que diferença faz o bom jornalismo. Em “The connection has been reset” (“A conexão foi restabelecida”, também disponível em nosso clip), artigo publicado na edição de março da revista norte americana TheAtlantic, o repórter James Fallows, apresenta uma interessante explanação a respeito do funcionamento do sistema chinês de censura à internet. Construído a partir de dezenas de depoimentos e de informações técnicas detalhadas, o texto é esclarecedor e surpreendente. Além do desvendar o controle sobre a rede – algo muito comentado e pouco conhecido no Ocidente — contribui para compreender um pouco melhor as complexas relações entre Estado e sociedade na China.

Fallows aborda, primeiro, o sistema chamado pelo governo chinês de de Golden Shield Project, ou Projeto Escudo de Ouro. Todo o tráfego de informações para dentro e para fora do país é monitorado, graças a dois artifícios. Ao contrário do que ocorre no Ocidente, a arquitetura da internet na China foi concebida de modo a admitir apenas três grandes portas de entrada, por onde passam os cabos de fibra ótica que ligam o país ao resto do mundo. Cada bit que passa por estes canais é duplicado, graças a um sistema que inclui microscópicos espelhos físicos (fornecidos pela empresa norte-americana Cisco…). Os dados são dirigidos aos computadores do Escudo de Ouro, processados e analisados. Uma equipe de vigilância manobra um sofisticado mecanismo de controle. Ela pode bloquear, de quatro diferentes maneiras, o acesso a qualquer conteúdo que lhe pareça digno de censura.

O aspecto mais efetivo do Golen Shield reside, aponta Fallows, em sua de imprevisibilidade. A BBC, por exemplo, pode ser consultada, em geral, sem qualquer tipo de bloqueio. No entanto, basta a presença de uma matéria sobre as manifestações no Tibete ou algum outro conteúdo sensível aos olhos do governo para que o sistema de vigilância, sempre atualizado, bloqueie imediatamente o acesso ao portal. Um exemplo interessante da adaptabilidade do projeto é a flexibilização temporária que irá ocorrer nos mecanismos de controle, para receber o fluxo de turistas estrangeiros durante os Jogos Olímpicos.

Uma das formas de controle é o monitoramento das palavras buscadas pelos usuários em sites como Google e o Baidu – um similar chinês, censurado e rapidíssimo. A procura por termos considerados sensíveis pode ser punida por bloqueios temporários. A alternância na decisão do que será ou não censurado, incluindo palavras que pertencem e deixam de pertencer ao index do governo, e o aprimoramenteo constante das técnicas de controle desenham um ambiente quase panóptico. Sem saber ao certo quais os alvos do controle, os cidadãos se mantêm constantemente atentos e amedrontados.

Livres da vigilância do “Escudo de Ouro”, centenas de redes virtuais privadas

O curioso, mostra o artigo, é que o Escudo de Ouro pode ser driblado por dois mecanismos conhecidos e tolerados pelo Estado. O primeiro (lento, grátis e usado por estudantes e hackers), é a conexão com servidores proxy no exterior. Por meio deles, um internauta chinês habilidoso pode ultrapassar as três grandes portas e navegar livremente, como se o fizesse a partir da Alemanha, da Austrália ou do Brasil. O segundo, muito mais difundido, são as redes virtuais privadas (VPNs, em inglês), acessíveis por assinatura. Permitem codificar os dados, empacotá-los e passar sem controle pelo Escudo de Ouro. As conexões individuais custam 40 dólares ao ano (uma semana de trabalho, para um operário). Centenas de empresas financeiras, industriais e comerciais, chinesas e estrangeiras, utilizam o sistema. Precisam disso para fazer negócios, sem barreiras, com uma rede cada vez mais extensa de parceiros em todo o mundo. Milhões de funcionários têm acesso às VPNs. Do ponto de vista técnico, o Estado poderia bloquear facilmente ambos os meios de driblar a censura. As conseqüências econômicas e políticas seriam desastrosas.

Por que manter um sistema de controle sofisticado e custoso, se ele pode ser contornado? O segredo, explica Fallows, é que o Escudo de Ouro estabelece os limites políticos e psicológicos de um espaço chinês da internet. Dentro dele, o controle é rígido. Equipes de censores (fala-se em dezenas de milhares) podem determinar, por exemplo, ao responsável por um portal, que se proíbam artigos sobre um determinado tema em todos os sites ou blogs lá abrigados; que se apaguem os textos já publicados sobre o assunto; que se eliminem os comentários postados a respeito em fóruns e listas de discussão.

Em tese, é perfeitamente possível contornar também este obstáculo. Basta postar em sistemas sediados no exterior e torcer para que os textos sejam lidos pelos usuários que driblam o Escudo de Ouro. Na prática, conta a reportagem, quem age assim descamba para a irrelevância política. A grande massa da população (já são 210 milhões de internautas, um número só superado pelos Estados Unidos) está interessada em se informar por meio de sites e blogs chineses, não em desafiar as autoridades.

Ao menos no momento, portanto, o regime não despreza a repressão, mas usa, como principal instrumento de política, a criação de consensos. Ao tentar responder perguntas de leitores (numa interessante seção, criada com este fim, no site de The Atlantic), Fallows faz obseravações muito interessantes sobre o Estado chinês: “A maior parte dos norte-americanos imagina um governo todo-poderoso, com cidadãos permanentemente controlados e o regime interferindo em todos os aspectos da vida”, diz ele. De fato, prossegue, “o regime é ser rude, quando lida com quem é visto como ameaça política”. Mas “em geral, não se assemelha em nada à era de Stalin na União Soviética, ou à Coréia do Norte de hoje (…) As pessoas não caminham olhando para trás, com medo de estar sendo seguidas”. O poder constrói sua legitimidade assegurando padrões de vida que melhoram, para a maior parte da população, e “não oprimindo a sociedade mais do que o necessário”…

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Redes livres, criatividade e repressão

A prisão, em São Gonçalo (Baixada Fluminense), de Bruno Assumpção, um jovem empreendedor especialista em redes de comunicação, pode abrir um debate indispensável no Brasil. Bruno descobriu como distribuir, para algumas dezenas de vizinhos, o sinal de banda larga de internet que recebe de uma operadora telefônica. Bolou um modelo de negócio bem-sucedido: por R$ 30, mais uma placa para conexão sem fio, é possível navegar sem limite de tempo, com velocidade razoável, deixando livre o telefone. Deixou de freqüentar as estatísticas de desocupação.

Foi preso há cerca de um mês, porque as leis de propriedade que herdamos do passado são incapazes de lidar com a idéia dos bens comuns — embora novas relações sociais, e o avanço da tecnologia os multipliquem sem cessar. Parte da história de Bruno (que aguarda julgamento em liberdade) está contada numa ótima reportagem de Ítalo Nogueira, publicada na Folha de hoje (sim, há alguns resquícios de bom jornalismo na mídia comercial…) e reproduzida em nosso clip.

Há centenas de Brunos espalhados pelas periferias do Brasil. É pelas quebradas que está chegando, no país, a idéia das redes livres. Em várias partes do mundo, coletivos dispostos a lutar pela liberdade de informação estão montando redes alternativas às comerciais — e quase sempre gratuitas. A tecnologia sem fio permite que os sinais da internet sejam captados em qualquer parte do mundo, por um custo irrisório. As informações e serviços disponíveis na rede são produzidas por bilhões de pessoas. Que sentido há em oferecer a mega-empresas o direito de cobrar por eles?

No clip há mais informações e links sobre redes livres que estão sendo montadas em muitas partes do mundo. O blog produzirá matéria a respeito. Para contribuir, envie seu comentário, informação ou análise.

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Desafios da interatividade

Está surgindo, diante de nossos olhos, uma nova forma de ação política. O problema é torná-la visível, reconhecida, capaz de refletir sobre si mesma e de se reproduzir constantemente

Tornar o leitor participante ativo da produção do jornal tem, para Le Monde Diplomatique, sabor especial. É que, sumultaneamente com a interatividade proporcionada pela internet, está em curso um outro movimento — provavelmente ainda mais profundo: o repensar da própria política. Uma parcela crescente das sociedades deixou de identificála (como os Fóruns Sociais Mundiais já haviam demonstrado) apenas com a representação. Política já não é o comparecimento às urnas, em intervalos regulares, para delegar, a partidos ou indivíduos, o poder de expressar nos projetos, valores e desejos. Esta forma limitada de democracia esvaziou-se aceleradamente nas últimas décadas — mas em seu vácuo não ha apenas desencanto, impotência social e agigantamento do poder econômico e das finanças.

Emergiu também a noção de que é possível mudar o mundo construindo permanentemente valores, lógicas sociais e poderes contra-hegemônicos. Multiplicam-se as iniciativas transformadoras autônomas. Às vezes, têm personalidade formal: um movimento social, uma ONG, uma cooperativa, uma associação. Em inúmeros casos, são informais: uma comunidade de software livre que trabalha em regime de colaboração, um grupo de ativistas em favor da liberdade de compartilhar conhecimento e produções culturais. Não negam a política, assim como os blogueiros não negam os jornais. Vão além: querem ser — por meio de sua vida, quotidiano e iniciativas transformadores — a política.

Este novo ativismo nunca pára de produzir reflexões e análises. Mas seu pensamento não é matéria dos jornais convencionais. Presos a uma visão que não vê espaço público além das instituições, eles dedicam suas páginas ao que diz cada vez menos (as manobras nos parlamentos, os escândalos de corrupção, o jorgo eleitoral — enfim, a política-espetáculo), enquanto fecham os olhos ao que interesa a um público cada vez maior (o exame profundo da realidade, as ações que criam novas lógicas sociais, as formas alternativas de cultura e convívio, por exemplo).

A nova cultura política que emerge precisa de espaços de diálogo. É neles que ela pode compartilhar experiências; debater pontos de vista, aprofundar compreensões e construir consensos; expor divergências, entender seu sentido e, se for o caso, resolvê-las; agir em conjunto, por meio da sedução de idéias e projetos. Estes espaços de diálogo também são necessários para que a nova cultura possa se expandir. Tornando conhecidas suas narrativas de mundo, suas práticas; revelando que é possível construir o futuro comum por meio de ações autônomas; estimulando, pela força dos exemplos, o surgimento de uma imensa diversidade de novas iniciativas.

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Uma receita para o Caderno Brasil

Tornar-se, no grande caos criativo da internet, um na rede, um ponto onde múltiplos saberes dialoguem e construam o comum — sem perder a própria identidade jamais…

Dois novos colunistas e um ilustre colaborador eventual estrearam no Caderno Brasil do Diplô, na virada do ano. Bruno Carmelo escreverá semanalmente sobre cinema e diversidade. Bruno Cava, a cada quinzena, sobre movimentos estudantis. Giuseppe Cocco, parceiro do filósofo italiano Toni Negri em pelo menos um livro e diversos artigos, analisa o programa Bolsa-Família, relacionando-o com a utopia possível da desmercantilização do trabalho.

Carmelo, Cava e Cocco expressam, cada um a seu modo, o projeto do Caderno Brasil: tecer uma ampla rede de colaboradores brasileiros, unida por valores e visões de sociedade convergentes, mas diversa nas temáticas abordadas e nas nuances de suas sensibilidades políticas. Estimular a autonomia desta rede. Abandonar a velha idéia de jornal — um produto verticalizado, cuja forma final (expressa na pauta, na alocação arbitrária dos textos em um número limitado de páginas e em relações internas marcadas por hierarquia e assalariamento) tinha a cara dos editores.

O papel destes é outro (e muito mais instigante, do nosso ponto de vista…) na era da comunicação compartilhada. Cabe-lhes animar a rede de colaboradores. Com abertura para identificar ou garimpar os temas e autores que possam enriquecê-la. Com acompanhamento constante dos fatos, para sugerir novas pautas à rede armada em torno do jornal. Com sensibilidade para propor, no material produzido por esta rede, alterações que mantenham a integridade dos artigos, mas construam, simultaneamente, alguns padrões editoriais e gráficos.

Passados pouco menos de três meses do lançamento do Caderno Brasil, os primeiros resultados parecem muito animadores. O número de textos visitados no site a cada dia subiu para mais de 5 mil — um patamar expressivo, levando em conta o caráter da publicação. A estréia de Carmelo, Cava e Cocco amplia para 34 o número de colaboradores do jornal. Destes, nove escrevem regularmente, como colunistas. Entre este corpo estão pensadores e jornalistas admirados por sua contribuição à cultura brasileira, como Augusto Boal, Elisabeth Carvalho, Iganacy Sachs, José Luís Fiori, Ladislau Dowbor. Mas não são menos importantes os personagems que expressam assuntoe e ações emergentes. Entre muitos outros, Rodrigo Gurgel, Eleílson Leite, Dalton Martins, Ernani Dimantas, Evilásio Salvador, Manoel Neto, Flávio Shirahige, Luiz André Ferreira, Sílvia Ferabolli, Cláudio César Dutra de Souza.

É um ótimo começo. Mas o Caderno Brasil quer ir muito além, em 2008.

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